Intruso iluminado


FOTOS: SI/SI/LUIZ HOSSAKA

INSTALAÇÃO de Severino Iabá (1) na entrada principal do Pavilhão da Bienal Internacional de São Paulo, Rosa (2) colocada por Iabá na instalação de Antoni Miralda, e a Virgem amamentando o Menino Jesus e São João Batista (3), do acervo do Masp


Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

A sofrível e mais recente edição da Bienal Internacional de São Paulo terminou de maneira melancólica para seus organizadores (leia-se presidente e grupo de curadores): ao contrário das duas anteriores, com milhões de visitantes, a cifra total de visitantes não passou dos 535 mil, no período de 65 dias, encerrado em 17 de dezembro. Por outro lado, como já escrevemos anteriormente, o melhor da Bienal não estava exatamente no Pavilhão da Bienal. À parte Cildo Meireles, na Estação Pinacoteca, com suas normes e instigantes instalações, e Hélio Oiticica, com seus penetráveis na Galeria Nara Roesler, houve uem roubasse a cena de moddo inusitado: o artista plástico e videomaker Severino Iabá, com sua instalação de flores, na entrada do prédio principal, juntamente com artistas integrantes do Grupo Jirau Uraci Micael (contador de histórias). Terezinha de Assis (escritora), Jorge Dissonância (músico) e um bom número de visitantes dos dois últimos dias, após recolher as flores em papel crepon brancas nas duas instalações em frente o pavilhão da bienal e na Praça da Paz, circularam por todas as dependências, culminando com a colocação da última rosa por Iabá, na instalação do artista Antoni Miralda. A ironia da apropriação de vários espaços do Parque do Ibirapuera e desdobramento em visitas resultou numa proposta que esteve por fora e por dentro da Bienal, apesar da miopia de seus organizadores, que não permitiram as diferentes performances no recinto interno. Sem dúvida, após seis horas de apropriações e instalações que contaram com a participação de milhares de pessoas que estavam no Parque e que, depois de participarem do trabalho de criação coletiva ( work in progress) terminaram por visitarem a Bienal. Anteriormente, Iabá apropriou-se do Parque das Mangabeiras, do Parque Municipal, da terra do mineiro assassinado no metrô de Londres Jean Charles, e da terra do escritor Guimarães Rosa, Cordisburgo. Ele foi convidado especial numa das edições do Resumo Hoje, promoção deste HOJE EM DIA, tendo ocupado todo o jardim à direita do Museu Mineiro.
Aqui em Belo Horizonte, as rosas foram confeccionadas por alunos da escolas municipais de Contagem e estaduais
de Belo Horizonte, principalmente aquelas que estão próximas do Museu Mineiro. Lá em São Paulo, Iabá utilizou flores
criadas por alunos de escolas municipais de Contagem, e o público espontaneamente aderiu à proposta. Como se vê, a atuação e apropriação do intruso, no bom sentido, rendeu mais para a Bienal que inúmeras propostas selecionadas através de historiadorescuradores, depois de darem quase uma volta ao mundo... Daí, se conclui que a Bienal, para reabilitar-se de vez, não precisa ir tão longe. Com artistas de todo o Brasil, como acontecia quando das pré-bienais ou bienais latino-americanas, sempre realizadas um ano antes da Internacional, podemos salvá-la do fiasco. Mudando de conversa, na impossibilidade de agradecer a todos aqueles que enviaram mensagens de Boas Festas, apropriamo-nos do Cartão de Natal enviado pela Casa Fiat de Cultura que, no verso, com uma simples mensagem em cartão do mais fino bom gosto, dizia: “Faça de 2007 uma obra de arte”.
A imagem do cartão é a Virgem amamentando o Menino de Jesus e São João Batista, da coleção do Masp-SP. A obra
esteve na exposição de arte italiana do Masp aqui em BH, na a mostra inaugural da Casa Fiat de Cultura. A foto é de Luiz Hossaka.
Enfim, diga-se de passagem que apesar da maioria terem sido cartões virtuais, os tradicionais e mais clássicos, deram um show de bola em termos de bom gosto. Não importa, agradecemos e retribuímos votos de tudo que há de bom em 2007, ano ímpar, que corresponde a meio caminho andado em termos de nossa preferências.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

01.01.2007