Um outro olhar

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


A galeria do BDMG Cultural apresenta, a partir de quinta-feira até dia 31, a exposição “Espelho Meu" de Agnes Farkasvolgyi, uma coletânea de auto-retratos, a grande maioria pintada a óleo. As pinturas foram produzidas a partir de fotos tiradas pela própria artista, que segurava a câmera e a posicionava com a distância do própria braço, e mais fotos tiradas por amigos.
Todas as fotos foram elaboradas com o objetivo de serem pintadas. Agnes utiliza de forma inusitada as cores e os ângulos, faz uso de camadas sobrepostas, tinta maleável e pastosa. Além disso, tem um cuidado especial no preparo das tintas e na escolha das texturas. E é por esse processo que a artista percebe o espelho, o outro olhar, invertido e virtual.
Agnes, que acaba de concluir o bacharelado de pintura pela Universidade Federal de Minas Gerais, é também chef de cozinha. Divide o seu tempo entre as duas atividades alquímicas: gastronomia e pintura. Há muito de arte nos seus pratos culinários e nos processos culinários na sua arte. Uma atividade alimenta a outra, assim como ambas são a substância essencial à sua alma. Ela é pintora como gosta de salientar, mas transita facilmenta por outras áreas como a gravura, a escultura e a instalação.

Nas diversificadas construções versus desconstruções, Agnes usa e abusa de sua criatividade. Nada contra a fotografia tradicional, no entanto, seu mote principal é a pesquisa e as diferentes experimentações, que resultam numa grande virada em sua carreira. Fotografias pintadas ou pinturas elaboradas sobre o suporte da fotografia? Não importa. Através dos efeitos das inserções e incisões, ela provoca deslocamentos. E a partir do deslocamento e da contaminacão, a artista cria novas imagens e situações ricas nos acréscimos e nos pequenos detalhes. É o seu grande achado em termos de arte contemporânea versus fotografias.

- Mostra individual de Agnes Farkasvolgyi . Galeria do BDMG Cultural (Rua da Bahia, 1600). Vernissage na quarta-feira. Em cartaz até dia 31. Visitas de segunda a sexta, das 10 às 18 horas.

Os screem tests de Warhol

Andy Warhol foi um mestre em captar imagens. Era fascinado por elas quando contemplavam as celebridades, a aura e a beleza do estrelato. O artista produziu uma série de filmes, os screem tests, entre 1963 e 1966, reunidos aqui no Brasil em uma mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Moma), denominada “Andy Warhol Motion Pictures". A exposição, inédita na América Latina e vista anteriormente somente em Nova Iorque, Berlim e Veneza, esteve no Rio de Janeiro, e fica em cartaz em São Paulo até o dia 14, mas pode ser acesada via internet no site do Moma.


Para a mostra, os filmes, produzidos em 16 mm, foram transferidos para DVD com velocidade de 16 quadros por segundo, e projetados em telas e monitores dentro do contexto da galeria.

Desta forma, é possível ver novamente os trabalhos como Warhol pretendia que fossem vistos e admirados, além de apreciar as formar com as quais desafia e provoca tanto os retratados como os espectadores na sua manipulação de imagens em movimento.

Os retratados era modelos, atores, atrizes, artistas, ecritores e poetas, além de amigos e outros que desejavam ser famosos. Ele pedia aos retratados que sentassem em uma cadeira encarando uma câmera parada e tentassem não se mover durante os três ou mais minutos necessários para que um rolo de filme de cem pés passasse pela câmera de 16 mm. Entre os que posaram para Warhol, estão Dennis Hopper, Susan Sontag, John Giorno, Gerard Malanga, Salvador Dalí.

A pose fixa, sua quietude particular e o movimento reduzido à velocidade de 16 quadros por segundo tornam impossível categorizar os retratos: são filmes em câmara lenta ou fotografias que se movem lentamente?
É uma boa oportunidade para entender o trabalho de Warhol como retratista e ao mesmo tempo cineasta.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

01.08.2005