Invasão holandesa

Dos tempos do Brasil de Nassau: “Dança de Tapuias" (Foto / Divulgação)

“Albert Eckhout volta ao Brasil" é o título da exposição mais abrangente do artista, que abriga a Pinacoteca do Estado de São Paulo até março.
A ocasião é realmente histórica: pela primeira vez, a coleção de 24 quadros do pintor holandês Eckhout (1610-1665) sai da Dinamarca. Na época em que foram pintadas, as obras trouxeram novas imagens e e contribuiram para a transmissão de impressões de um mundo desconhecido, mudando a forma como os europeus percebiam povos de ascendência desconhecida e origem exótica.
As imagens foram pintadas enquanto o artista estava contratado pelo conde Johan Maurits van Nassau-Siegen (1604-1679), governador-geral do Brasil Holandês, entre janeiro de 1637 e maio de 1644.
O Conde de Nassau era altamente respeitado por seus feitos e por sua visão de mundo, e reinava com grau de indulgência excepcional para a época. Seu lema “qua pater orbis" (leia-se “até onde o mundo alcança"), adotado no início da viagem ao Brasil, mostra a extensão de sua curiosidade.
Nassau empregou grande número de especialistas, incluindo Albert Eckhout e seu colega Frans Post (1612-1680), os primeiros artistas treinados para registrar imagens do Brasil, encarregados de fornecer imagens fiéis das pessoas e da natureza do Novo Mundo. Hoje, os resultados dessa estratégia e o trabalho dos pintores superaram de longe suas ambiciosas metas.
350 anos depois que as obras chegaram ao Kunstkammer do Rei Frederik III da Dinamarca, são apresentadas ao público brasileiro au grand complet, em itinerância iniciada em Recife, depois Brasília e, até março, São Paulo.
Considerando que o Brasil é formado por uma sociedade pluralista, e compreendendo múltiplos encontros étnicos, Eckhout foi o primeiro a registrar a iconografia desse processo de encontros culturais, constituindo a fonte das formulações modernistas sobre a identidade brasileira, marcada pelos atritos e intrigas, nos encontros de europeus, nativos e africanos da diáspora da escravidão.
De 1637 a 1644, Eckhout pintou naturezas-mortas, em que frutas tropicais aparecem em grande escala, e retratou os nativos em tamanho natural. Nassau conservou as obras em sua casa até 1654, e depois as deu de presente a seu primo Frederico III, rei da Dinamarca, motivo pelo qual o acervo pertence ao Museu Nacional da Dinamarca.
De acordo com a curadora da mostra, Elly de Vries, Eckhout foi o primeiro a retratar nativos, em vez de personalidades da sociedade e a natureza ao ar livre.
A diversidade brasileira é outro tema do artista. Não apenas frutos e animais típicos estão representados em suas telas. Um exemplo é o periquito, pássaro africano, na mão de uma criança, na tela “Mulher Negra".
Jens Olensen, dinamarquês radicado no Brasil por mais de 33 anos, é o responsável pela vinda das obras que até Dom Pedro II tentou trazer, em duas ocasiões, sem sucesso. Olensen, que organizou visitas da rainha e de príncipes da Dinamarca ao Brasil, é quem vai receber a rainha da Holanda, que até março deve visitar a mostra, orçada em US$ 2,5 milhões, sob patrocínio do banco ABN Amro.

“Albert Eckhourt Volta ao Brasil" - 21 monumentais pinturas do século XVII. Na Pinacoteca do Estado de São Paulo (Praça da Luz, 2, São Paulo-SP). Visitas de terça a domingo, de 10 às 18 horas. Até 30 de março.

Morgan da Motta
20.01.2003