Além das fronteiras

Os centros culturais Banco do Brasil do Rio de Janeiro e de São Paulo apresentam dois ex-alunos do mestre Alberto da Veiga Guignard, ambos falecidos e só agora resgatados, apesar de seu prestígio em termos nacionais e internacionais.

Estamos falando das retrospectivas de Mary Vieira, em Sampa, e de Farnese de Andrade, no Rio. E porque nenhum museu mineiro ou centro cultural local se interessou, ao que parece teremos de aguardar a abertura do CCBB aqui em Belo Horizonte, no segundo semestre. Mary Veira (1927-2001) é considerada internacionalmente uma das pioneiras da arte cinética, que propõe a interação do público com as obras de arte que se movem e se transformam.

Ela estudou na Escolinha do Parque (atualmente, Fundação Escola Guignard), com o mestre Guignard e Franz Weissmann. Depois de participar de uma das primeiras bienais de São Paulo, onde conheceu Max Bill, o suíço que a convidou para estagiar no exterior, Mary praticamente passou a ser um ícone internacional. Na Europa, estudou na Escola de Ulm, na Alemanha. Embora nascida em São Paulo, a artista teve toda sua carreira construída em Belo Horizonte, para onde veio aos cinco anos de idade. Mary recebeu prêmios internacionais como designer gráfico e realizou obras monumentais em Zurique e Basiléia, na Suíça, e em Brasília, São Paulo e Belo Horizonte (aqui, aquela megaestrutura em concreto na praça da Rodoviária).

A exposição reúne conjunto de obras inéditas para o publico brasileiro, vindo da Itália e da Suíça, e obras das principais instituições brasileiras. São apresentadas também peças gráficas, fotos de obras públicas e dois filmes sobre a artista _ o primeiro, de Maurício Andrés, filho da sua amiga e contemporânea Maria Helena Andrés, que sempre disse que Mary esteve muito adiante do seu tempo; o segundo, fornecido pelo enteado, filho do crítico de arte Carlo Belloti. Por sua vez, Farnese de Andrade (Araguari, 1926/Rio de Janeiro 1996) é revisto na mais completa exposição dedicada ao notável artista mineiro.

Da mesma forma que Mary Vieira, ele foi aluno de Guignard e Franz Weissmann; iniciou sua trajetória na Fundação Escola Guignard, passou pela Itália, Espanha e, finalmente, Rio de Janeiro, onde morreu, aos 70 anos.

Suas autorais assemblages, de impecável originalidade e sensibilidade estética, registram 50 anos de uma atividade que enfocou temáticas diversificadas, do erotismo à religiosidade, na convivência da modernidade ao arcadismo.

Enfim, o múltiplo artista mineiro, sem dúvida, deu status artístico a armários, oratórios, gamelas e outros objetos de segunda mão. A propósito, no mesmo local está «Soto: A Construção da Imaterialidade», mostra que apresenta uma visão sintética da obra de um dos grandes criadores de arte moderna, o vezeuelano Jesus Rafeal Soto (Ciudad Bolívar, 1923/ Paris, 2005).

O acervo abrange desde sua históricas obras cinéticas até as mais recentes, em diálogo com um conjunto de trabalhos de artistas brasileiros, seus contemporâneos, casos de Lygia Clark, Franz Weissmann, Amilcar de Castro e (o falecido) Sérgio Camargo (aquele que nos anos 70, que residia em Paris e apresentava seus painéis pelas sedes do Banco do Brasil (Paris, Londres, Nova Iorque e até no Texas). Por meio de sua obra, marcada pela pesquisa sobre percepção visual, luz, movimento, fenômenos sensoriais e imateriais que envolvem o espectador, Soto prova que não há barreiras para a dimensão da arte.

O venezuelano Jesus Soto, radicado em Paris desde a década de 50, onde faleceu às vésperas da abertura de sua mostra no Brasil, no início do ano, é bastante conhecido do público brasileiro. Seus trabalhos estiveram em cinco edições da Bienal Internacional de São Paulo.

Suas grandes esculturas e instalações, de fios de náilon conjugados com varetas de alumínio, foram acolhidas como mais instigantes e impactantes na penúltima Bienal de São Pulo e quando de sua mega-retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo.

Mary Vieira - No Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo). De terça a domingo, de 10 às 21 horas. Até 27 de março.

Farnese de Andrade - No Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro). Até 10 de Abril.


Morgan da Motta
21.02.2005