Imagens do interativo

AMBIENTES da exposição: transparências em acetato são projetadas sobre a parede, simulando virtualidades com a sobreposição de imagens (Fotos Valdelice Neves)

A pesquisa da materiais inusuais, partindo das gravuras e imagens criadas por grafiteiros, é o combustível principal de Valdelice Neves, educadora e artista multimídia que, sem fazer malabarismos, alcança seus objetivos. Ela vai integrar a coletiva “O Tridimensional na Arte Contemporânea", como artista convidada e sob nossa curadoria, em mostra itinerante, a ser vista em maio e junho em Belo Horizonte, em agosto e setembro em Brasília, mais o MAC da USP, em São Paulo e, finalmente, na Galeria Debret da embaixada do Brasil em Paris, em fevereiro e março de 2004.
O projeto de Valdelice é uma projeção de imagens sobrepostas, conseqüente da pesquisa que ela realiza há alguns anos sobre pichadores e grafiteiros de várias cidades do mundo. Daí, compreende mídias como gravura em metal, registros fotográficos, desenhos, ruídos urbanos, perfomance com dois bailarinos e vídeo.
O resultado apresentado é uma projeção de imagem sobre parede, cujo título, “Fragmentos da Cidade", tem como base e foco central a gravura em metal. Transparências em acetato de gravuras em metal são projetadas sobre a parede, na tentativa de simular virtualidades visuais com a sobreposição de imagens. Além da gravura e do retroprojetor, há uma caixa de 20 por 25 centímetros, contendo placas de acetato alternativas, permitindo ao espectador a interação. O grande final resulta em coreografia desenvolvida por dois bailarinos por detrás de cenários de lençóis, dando movimento à imagem, como que a esculturas dançantes. No exato momento, a obra sai do plano suporte e se vivifica na tridimensionalidade do movimento.
Por que o sucesso da síntese do bidimensional, elevado ao tridimensional e valorizado pela trilha sonora e performance? O fato é que isso tem rendido prêmios e até plágios, por artistas que gostaram da idéia ao ponto de fazer pasticho de um trabalho calcando em experimentações, pesquisas e seriedade.
O sucesso de Valdelice se explica, entre outras coisas, por ela ter sido educadora e mulher animadora da comunidade. Por muitos anos, teve experiências com jovens de periferia, obtendo resultados bastante satisfatórios, no tocante à educação, aos níveis intelectual e humano. Os excluídos, confusos e sem futuro, ela tenta levá-los a encontrar o seu espaço e os guia à própria identidade, que, conscientemente ou não, procuram.
“Costumo dizer que estes gritos visuais são como o choro da arte; são energias, adrenalinas que precisam ser canalizadas a tempo, contra drogas e a marginalidade", registra a artista.
Numa cidade em que, sob o rótulo de arte conceitual, tantas bobagens são propostas, é bastante estimulante acompanhar todos os estágios de algo que paira nos limites da instalação, da arte conceitual e das novas mídias - termo tão gasto e mal empregado, mas, diga-se de passagem, não no caso de Valdelice Neves.

Morgan da Motta
10.03.2003