MODA & ESTILO

Homem de saia, um símbolo de virilidade

Morgan da Motta
De Nova Iorque
Especial para Moda & Estilo

Embora as mulheres tenham, ao longo da história da vestimenta no Ocidente, tomado emprestados vários elementos da moda masculina, o inverso raramente acontece e o uso de saias pelos homens ainda é tabu. O Museu Metropolitano de Nova Iorque causou o maior frisson com mostra no gênero, realizada em fevereiro deste ano.

Através de ilustrações, a mostra fez um passeio pela história, revelando que na Grécia e na Roma antiga tais vestimentas projetavam os ideais de juventude e virilidade. Da mesma forma que os kilts escoceses, que se apresentam como uma expressão de hiper-masculinidade, e provam ser a forma de saia mais potente e versátil, apresentados em versões modernas por Jean Paul Gaultier e Vivienne Westwood.
Os “vestidos" da Ásia, África e Oceania revelam que não há uma ligação natural entre saias femininas e masculinas. São analisados também o robe chinês, quimono japonês, vestes índias, sarongues do Sul da Ásia, cafta e djellaba do Oriente Médio e Norte da África.
Na sociedade moderna, saias foram usadas em protestos individuais e em movimentos como o punk, grunge e o glam rock. Os criadores atuais se apropriaram das saias como meios de injetar novas tendências na moda masculina, enfim, como meio de transgressão moral e social, bem como visando redefinir o ideal de masculinidade sob um cruzamento cultural como contexto maior. Os hippies usavam saias em sociedades utópicas e projetavam a roupa unissex. Tal ideologia tem impressionado estilistas como Rudi Gernreich e Walter van Beirendoch, que apostam na saia como a roupa ideal e o futuro para os homens.

Coube ao curador associado do Instituto da Moda do Metropolitan Museum de New York organizar a mostra novaiorquina, patrocinada pela Casa de Moda e pelo designer Jean Paul Gaultier que, desde a década de 80, tem feito criativas incursões no gênero. Além de Gaultier responderam à proposta do curador os seguintes designers e conceituadas griffes de moda masculina dos dois lados do Atlântico: Miguel Adrover, AmeriKilt, Giorgio Armani, John Bartlett, Ozwald Boateng, Bodymap, LeighBowery, Burberry, Roberto Cavalli, Christian Dior Haute Couture, Comme des Garçons, Dolce & Cabbana, Dries van Noten, John Galliano, Rudi Gernreich, Tom Ford for Gucci, Tommy Hilfiger, Juicy Couture, Donna Karan, Kenzo, Michico Koshino, Sandra Kuratle for Amok, Alexander McQueen, Andreww Mckenzie, Moslchino Couture, Philip Sallon, Paul Smith, Stuart Stockdale for Pringle of Scotland, Ana Sui, 21st Cen tury Kilts, Utilkilts, Walter vanBeirendonck, Vivienne Westwood e Yohji Yamamoto.
Para ter uma idéia da exposição, apresentada no Museu Victoria e Alberto, inicialmente em Londres, basta acessar o site do museu: www.metmuseum.org.

Contracultura, tropicalismo e Boy George

Ainda sobre o uso de saias pelos homens, que teve em Boy George um dos fortes representantes da androginia, no Brasil aconteceram pequenas incursões dos baianos Caetano e Gil, para uns contracultura, enquanto que para outros um toque de tropicalismo e do movimento hippie. Mas a estrela maior foi Flávio Carvalho, cujo trabalho vem sendo apresentado num módulo da coletiva Plataforma São Paulo, que acontece no Museu de Arte Contemporânea da USP, no Parque do Ibirapuera. “A Moda e o Novo Homem" mostra um dos significativos projetos do artista: saia para homem num país tropical. Além dos trajes sobre manequins, farto material fotográfico dá uma idéia perfeita das performances do pioneiro das saias para homens no Brasil. A exposição, que passou praticamente despercebida, pode ser conferida no MAC Ibirapuera, 3º andar do Pavilhão da Bienal de São Paulo, até dia 2 de maio, com visitas de terças a domingos, das 9 às 18 horas, e sábados e domingos, das 12 às 18 horas.

Morgan da Motta
18.04.2004