Criação com Devoção

Conjuntos em madeira de “Ex-Votos (FOTOS/RONALDO MAGALHÃES/RONALDO MAGALHÃES/GEF)

A Galeria de Arte do Espaço Cultural Cemig comemora seu 52º aniversário com a exposição “Ex-Votos", que reúne obras da coleção da mineira Márcia Moura Castro. O conjunto oferece boa oportunidade de percorrer, com visão ampla, tudo aquilo relacionado com ex-votos (imagens normalmente expostas em igrejas, ao cumprimento de promessas) em Minas Gerais e no Brasil.
O ex-voto, de acordo com a designação latina conservada, é a oferenda feita aos santos de particular devoção, ou especialmente indicados por alguém que obteve uma graça implorada. Há ex-votos esculpidos pelo próprio devoto, em madeira, barro, gesso e cera, já industrializados. As esculturas de caráter popular representam a pessoa que as oferece, a parte do corpo em que reside o mal (quase sempre, a graça implorada é a cura de uma doença) ou o próprio mal: chaga, defeito, tumor...
A curadora Sandra Bianchi estruturou a mostra considerando a função social e artística do ex-voto e a natureza eclética do público que freqüenta o espaço, dando ao ambiente caráter didático-informativo, procurando atender todos os olhares e interpretações possíveis, na fruição dessa peculiar e intrigante manifestação popular. Nessa concepção, o ex-voto pode ser visto e compreendido pelo menos de três maneiras: como conceito religioso, em manifestação ingênua e pura de fé e devoção; como representação figurativa e primitiva da arte popular, com características bastante específicas; e como documento antropossociológico, por constituir preciso registro de cotidiano, hábitos e ambientes dos cidadãos comuns, principalmente os dos séculos XVII e XIX no Brasil.
A exposição resulta, sem dúvida, numa montagem primorosa e abrangente, destacando aspectos didáticos na maioria das vezes esquecidos por artistas e curadores.
Outra exposição de destaque, na Errol Flynn Galeria de Arte, abriga o que há de mais recente da produção do nipo-brasileiro Yutaka Toyota, bastante conhecido dos mineiros quando a mostra de arte contemporânea do Museu de Arte da Pampulha se incluía entre as principais do Brasil, nas décadas 60 e 70.
As novidades desta individual, além de pinturas acrílicas e esculturas em aço inox escovado, são suas experimentações em nível de materiais, com a utilização de aço-carbono, aço conjugado com madeira e, principalmente, aço e plástico.
A economia de traços e formas revela dois aspectos da obra de Toyota: ao mesmo tempo em que flerta com a cultura pop de seu país, o artista, de 73 anos, inova e experimenta, ao utilizar materiais banais, do cotidiano.

“Ex-Votos" _ Peças da coleção de Márcia Moura Castro. Na Galeria Cemig (Avenida Barbacena, 1200, Santo Agostinho), de segunda a sábado, de 8 às 19 horas. Até 10 de junho. Yutaka Toyota _ Na Errol Flynn Galeria de Arte (Rua Alagoas, 864, Funcionários), de segunda a sábado, de 9 às 20 horas. Até 11 de junho.


Morgan da Motta
31.05.2004