Edemar Cid entregou obras à união


Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

O ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do falido Banco Santos, entregou obras de arte de sua coleção que, mesmo seqüestradas pela Justiça Federal, estiveram sob sua guarda até o final do ano passado. Decisão do juiz Fausto Martins de Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal em São Paulo, especializada em crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e lavagem de dinheiro, direcionou o acervo apreendido a diversas instituições artístico-culturais de São Paulo.

Assim, o acervo foi dividido entre o Museu Paulis (antigo Museu Ipiranga), o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), o Museu de Arqueologia e Etnografia e o Instituto de Estudos Brasileiros. Todas as instituições citadas são ligadas à Universidade de São Paulo.

Por sua vez, as obras que não foram retiradas pelos museus deverão ser recolhidas ao depósito do poder judiciário. Durante o processo de intervenção, liquidação e falência, Edemar ainda tentou manter a posse de três peças marajoaras, mas o juiz não só decidiu que elas pertencem à união, por seu valor histórico e cultural, como também que deveriam ser imediatamente retiradas da mansão do Morumbi.

As outras peças, como manuscritos históricos, pinturas e esculturas, que estavam em um depósito, também foram removidas, dado o risco de deterioração que corriam no local, alagado por uma enchente no primeiro semestre do ano passado - o galpão não contava mais com ar-condicionado, por falta de dinheiro.

A decisão do juiz de Sanctis, segundo alguns especialistas em falência, tumultuou o processo de falência do banco, uma vez que afasta a coleção dos credores que pretendiam vendê-la e, por conseguinte, arrecadar parte do dinheiro que o ex-banqueiro é acusado de ter desviado do banco.

Além das obras encaminhadas a entidades ligadas à Universidade de São Paulo, outras foram destinadas à Pinacoteca do Estado e um teto de Capela Barroca de Minas Gerais foi encaminhado ao Museu de Arte Sacra de São Paulo, que não sabe a sua procedência exata (de como saiu de Minas e chegou à coleção do banqueiro falido).

Recentemente, a decisão do juiz Sanctis ganhou um forte aliado. O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultura e Ambiental de Cidade de São Paulo (Conpresp) decidiu, em reunião extraordinária e por apoio unânime dos conselheiros, 'abrir processo para tombar o conjunto de obras e documentos de valor artístico, histórico e cultural da dita coleção Edemar Cid Ferreira', segundo o conselheiro Walter Pires.

Se o processo final for pelo tombamento, as obras não poderão sair de São Paulo. Com relação à mansão onde mora no Morumbi, em São Paulo, o juiz Fausto Martins de Sanctis determinou que o antigo controlador do Banco Santos deixasse a casa, avaliada em R$ 150 milhões, em 40 dias. Parecer do ministro do S.T.J. Edson Vidigal garantiu extensão de tal permanência.

Enfim, o que foi determinado com grande parte do acervo, foi a sua transferência em nível de guarda e administração provisória para, além dos museus citados, às secretarias municipal e estadual de São Paulo.

A residência deverá ser transformada em museu sob a guarda e administração do governo do estado de São Paulo e da Prefeitura Municipal da mesma cidade. O fato mais novo relacionado com o escândalo da falência do Banco Santos é a estréia de uma novela sob toda trajetória do homem que era funcionário do Banco do Brasil, 'virou' banqueiro e, a partir do período no qual presidiu a Fundação Bienal de São Paulo e a 'Mostra do Descobrimento - 500 anos', passou a ser considerado eminência parda dos meios artísticos e nacionais e 'colecionador' da noite para o dia... Para tanto, vários críticos de arte, que conhecem bem toda a falcatrua do ex-banqueiro e ex-colecionador, estão 'atuando como consultores'... Promete.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

06.02.2006