Pela lente do olhar

EM CARTAZ: Fotografia de Clauton Brina (1); “Modernos Dinossauros", acrílica sobre algodão de Ramon Brandão (2), e cortina de cerâmicas de Wanessa Cruz (3) (Fotos Divulgação/ Cemig/ A.Azevedo)

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

O artista belo-horizontino Clauton Brina apresenta sua mais recente produção na Galeria do BDMG Cultural, sob o título “Voyeurs", uma proposta de reflexão sobre o olhar.
Médico oftalmologista, Clauton é essencialmente um pesquisador do olhar. Aluno da Escola Guignard, tem se dedicado ultimamente à fotografia, como meio de investigação e reflexão sobre o mundo contemporâneo.
As propostas do dublê de médico e artista plástico não apresentam um eixo único, mas o deslocamento de imagens recheadas de figuras humanas, visando, antes de tudo, o olhar. Por outro lado, traz registros que contrapõem recortes da arquitetura neoclássica, com construções contemporâneas.
São 12 fotos plotadas em tamanho 90 x 90 centímetros e oito gravuras (serigrafias pelo processo silk-screen), conseqüentes do processo que teve início na França, entre 2001 e 2002, quando Brina procurou captar imagens de pessoas que estão, como nós mesmos, vendo o mundo que as cerca.
Como bem define o expositor, “a imagem do fotógrafo, seja ele profissional ou amador, é para todos uma imagem familiar. Afinal, quem nunca se deliciou com o prazer do `clic` e da apreensão dos mais diversos instantâneos da vida?". Respondemos: todos nós, desde que tenhamos um “olhar educado", não acham?
Por sua vez, sob o título “Ramón Brandão - Modernos Dinossauros Again", o artista juiz-forano mais uma vez explicita sua paixão pelo automóveis antigos. Na construção do trabalho, o ponto de partida são imagens de objetos industrializados e descartados após anos de uso _ automóveis semidestruídos, espaços urbanos abandonados, denunciando uma impossibilidade absoluta da destruição do seu sentido utilitário original. São fragmentos que jamais voltarão a integrar um todo _ o resultado final de um processo de produção e pensamentos de cunho moderno, que permeou toda a história do século XX.
Ramón sintetiza o conjunto, assim se expressando: “A nossa relação com os objetos industrializados cotidianos há muito extrapolou os limites do racional. O design tenta conquistar o status de obra de arte, mas não consegue disfarçar seu sentido fundamentalmente utilitário. A ele faltaria o reconhecimento de um calor artístico intrínseco. Restam apenas as ruínas das promessas de permanência e universalismo que a modernidade não pode cumprir".
E mais uma mostra resultante de tese de mestrado está numa das galerias de arte do circuito comercial da cidade. De volta a Belo Horizonte, Wanessa Cruz cursou a Escola Guignard, baseada na defesa de tese de pós-graduação em Artes Plásticas e Contemporaneidade, intitulada “Passagem - Fragmentos de um tempo no espaço". Sob esse tema, ela realiza sua primeira individual, destacando o trabalho com a cerâmica, na Galeria Agnus Dei Galeria de Arte.
De suas experimentações, destaca-se o permanente estado de mutação da matéria, que suporta interferências, transforma-se e possibilita inúmeras criações. Mas, o conjunto peca pelas diferentes técnicas e tendências, salvando-se por duas instalações que chamam atenção pela leveza e os novos materiais usados. As demais propostas confundem o visitante, por maior que seja a boa vontade de dar uma vista d'olhos em todos os trabalhos expostos.

“Voyeurs" - Fotografias e serigrafias de Clauton Brina. Na Galeria BDMG Cultural (Rua da Bahia, 1600, Centro). Visitas de 10 às 18 horas, exceto aos sábados e domingos. Ramón Navarro - Pinturas. Na Galeria Cemig (Avenida Barbacena, 1200, Santo Agostinho). De segunda a sexta, de 10 às 22 horas. Wanessa Cruz - Experimentações com cerâmica. Na Galeria Agnus Dei (Rua Santa Catarina, 1155, Lourdes). Visitas de 10 às 18 horas, de segunda a sexta; aos sábados, de 10 às 14 horas. Até o dia 30.

Morgan da Motta
23.06.2003