Ousadas instalações instigam o público

01. Inst. de Tiago Fazito. Foto: Leandro Gabriel
02. Instalações de Ricardo Carió, Tiago Fazito e Valéria Delfin. Foto: Cristina Monteiro
03. Instalação Vergalhões de Ferro de Gilberto Lustosa

Clipping de Maria Teresa Leal (*)
REPÓRTER


Galeria de arte num shopping? A proposta pode ser incomum. Mas em Ipatinga - cidade do Vale do Aço, com 250 mil habitantes - funciona. A mostra "Tridimensional na Arte Contemporânea", com curadoria do crítico de arte e colaborador do HOJE em DIA, Morgan da Motta, inaugurada em 23 de junho, já recebeu cerca de cinco mil visitantes e tem provocado reações diversas. Segue em cartaz até 13 de agosto, na moderna galeria Hideo Kobayashi, do Centro Cultural Usiminas, no shopping Vale do Aço.

"À primeira vista, a reação da maior parte do público é de estranhamento", informa a monitora Danielly Dias. Compreensível, já que os 16 artistas que participam _ mineiros ou radicados em Minas - rompem as fronteiras conceituais entre esculturas, objetos e instalações. Eles utilizam materiais como vergalhões, têxteis, resíduos industriais, madeira, chapas de ferro e até materiais orgânicos como sangue, pedaços de unha e pele. Logo na entrada, as mega-esculturas de Leandro Gabriel são impactantes. Elas são de sucata de ferro e resíduos industriais, remetem a cogumelos gigantes e ETs curiosamente envergados.

Mas basta desviar os olhos para à esquerda para se deparar com a singeleza dos móbiles de Maria Amélia. São sete bonecas de pano, com cabelos de lã desgrenhados, de confecção propositadamente rústica, ornamentados com asas de anjos e sapatinhos de neném. Nos vestidos, muitos bordados, brilhos, cores, miçangas e vidrilhos, além de referências religiosas como terços e imagens de santos.

"As crianças adoram e as mães querem comprar para enfeitar o quarto dos filhos", narra Danielly. Prosseguindo o tour galeria, outra proposta ousada. A artista Valéria Delfim confeccionou em alumínio e fibra de vidro a figura de uma "mulher-cristo", nua e em pose de crucificação, o que faz muita gente pensar em sacrilégio.

Em seu trabalho de curadoria, o crítico Morgan da Motta "bate e assopra", provoca e suaviza, transgride e convenciona. "Acho que escolhi trabalhos que dialogam de uma maneira surpreendente. Mesmo que, num primeiro momento, não se perceba essa possibilidade. Quis mesmo subverter, misturar, ignorando uma divisão conceitual que circula por aí em torno da arte contemporânea e que, para mim, não faz sentido", explica Morgan. "Ele tem bom olho", elogia Lisbeth Rebollo Gonçalves, professora da Escola de Artes e Comunicação (ECA) da USP, de São Paulo, e presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte, que foi conferir in loco a empreitada de Morgan. Em algumas seqüências, o visitante nem bem se recuperou de um choque e lá vem outro.

Diante da escultura em alumínio, por exemplo, de um homem nu, com o corpo fragmentado em três partes _ da mesma Valéria Delfim _ a reação que predomina é uma mistura de espanto e timidez. E, logo à frente, seguindo a linha da segmentação anatômica, aparece Tiago Fazito que trabalhou com pintura em cima de reproduções de fotografias de seu avô, e ainda arrisca um auto-retrato, mostrando braços e pernas dissecados com músculos e artérias à vista. O trabalho minimalista de Thula Kawasaki faz juz à sua ascendência oriental esbanjando paciência na confecção de minudências. Sua instalação diferencia-se radicalmente do conjunto selecionado por Morgan.

Em vários módulos (ou seriam móveis?) brancos, retrata, delicadamente, espaços domésticos como o banheiro, o quarto, o quintal, escadas e mini-varais carregados de (?) poemas! Em outro móvel, igualmente branco, Thula colocou em três pequenos vidros seus próprios resíduos de pele, unha e sangue.

Estranhamento também é impacto.

Sentir raiva, nojo ou experimentar sensações de estranhamento ou incompreensão diante de uma obra de arte são sinais positivos, na opinião do crítico de arte paulista Jacob Klintowitz - autor, entre outros, de "O Ofício da Arte: a Pintura" _ que também esteve em Ipatinga na semana passada. Na avaliação dele, estranhamento também é impacto, e pode até ser considerado um efeito estético, à medida em que faz o espectador sair da banalidade, registrando outros símbolos e referências, e até mesmo absorvendo revisões internas. A arte contemporânea é para poucos? "Tudo é para todos e tudo é para poucos", tangenciou o crítico diante da indagação, lembrando que todas as formas de conhecimento dependem de um esforço individual para a assimilação, e nada têm a ver com grau de escolaridade. "O que não é possível é o artista baixar o nível de sua linguagem para ser entendido. Isso seria uma forma de corrupção. Nem o artista, nem o crítico podem ser escravos da ignorância do público. Obra de arte não é fast-food", esclarece Morgan. Impressionado com o que viu, Jacob disse que os autores participantes estão prestando "um serviço inestimável à arte brasileira, alavancando nomes, pesquisas e iconografias".

Ele lembrou que a produção mineira é pouco conhecida no país e que sua surpresa foi verificar a capacidade de renovação dos artistas daqui, o que reforça sua convicção de que a existência de apenas alguns poucos "centros irradiadores de arte", como Paris, Milão, Londres ou São Paulo - é uma idéia anacrônica. "A criatividade é fundamentalmente individual, atemporal e cosmopolita", pontua. Questionado sobre a definição do termo "arte contemporânea", Jacob disse ser a arte capaz de colocar novas questões e brincou dizendo que, "sob este prisma, Leonardo da Vinci é extremamente contemporâneo". Na avaliação dele, o que vale na cultura e na arte em geral é a capacidade de suscitar questões essenciais sobre o homem e a consciência do homem. A artista plástica Mírian Scofield _ que participa da mostra - tem opinião semelhante.

"Arte contemporânea é tudo o que suscita pesquisa, seja de qual linha for", sentenciou, admitindo em consonância com Jacob que "há abusos" em torno da flexibilidade e até mesmo subjetividade do conceito. "Quem pinta um vaso de flores não é artista", provoca. Lisbeth Rebollo _ autora do livro "Entre Cenografias, a Cultura e a Exposição de Arte no século XX" _ destaca a disposição dos artistas mineiros em debruçar-se sobre pesquisas de novos materiais e técnicas e elogia a escolha do espaço de 800 metros quadrados e pé direito de 13 metros de altura. Segundo ela, a relação da obra com o espaço e sua interação com o público, hoje em dia, é tão importante quanto a matéria-prima. E é em razão disso que, cada novo espaço, provoca leituras diferenciadas sobre a obra. No caso específico do Galeria Hideo Kobayashi, a professora diz que há "vazios" necessários que falam por si.

"Na árvore estilizada do artista Paulo Coelho, por exemplo, os vazios são elementos que dão sentido à obra. São parte do processo criativo", pontua.

Sutileza e experimentação

Sutilezas e curiosidades nas gravuras-objetos de Mírian Scofield. Em seis tubos de aço inox _ dois no chão e quatro suspensos _ ela utilizou técnicas variadas; invencionices que vem experimentando desde que se mudou para Timóteo (cidade vizinha a Ipatinga) há 7 anos, graças à uma possibilidade aberta pela Acesita (uma das maiores indústrias do segmento do país) a artistas que quisessem aprender a trabalhar com aço inox. Para o trabalho que apresenta dessa vez, ela trabalhou da transparência, passando pela corrosão ao acetato. E, utilizando know how secretíssimo, fruto de longas pesquisas, demonstra bom humor ao narrar, num dos tubos, por meio de desenhos (que mais parecem garatujas), a história de um acidente de carro envolvendo ela e a família no final do ano passado, e que lhe rendeu fratura de algumas vértebras, e até hoje a obriga a usar um colar cervical. "Eu trabalho a poesia no ar.

Tudo o que faço tem sentimentos, tem uma história que nunca é óbvia. Gosto das coisas apenas sugeridas", avisa. Formada em Belas Artes pela UFMG, Mírian começou a experimentar a pintura ainda criança. Adulta, percebeu que precisava de algo que a desafiasse mais enquanto artista e que envolvesse várias técnicas. "Eu queria fazer escola", admite. Tanto que, no curso de graduação rejeitou a obrigação de fazer tiragens de seus trabalhos e excluir a matriz, que considerava, justamente a parte mais bela.

Ou seja: o que os artistas em geral desmancham utilizando ácido, Mírian buscou perpetuar no metal. Por causa disso, enfrentou problemas com professores que custaram a aceitar a proposta inovadora da aluna.

"Tridimensionalidade na Arte Contemporânea" - Galeria Hideo Kobayashi, no shopping Vale do Aço. De terça a sábado, de 10 às 22 horas e, no domingo, das 12 às 20 horas. Entrada franca. Monitoria permanente. Até 13 de agosto.


(*) A repórter viajou a convite do Centro Cultural Usiminas

07.08.2005