Entre a lente e o traço

GUATEMALA", desenho de Paulo Whitaker que pertence a coleção particular. “TIETÊ", a estação rodoviária paulista, numa fotografia de Caio Reisewitz. O QUARTETO formado por Fernando Augusto, Dulce Osinski, Paulo Whitaker e Caio Reisewitz: trafegando entre o desenho e a fotografia (Fotos Cemig-Divulgação // Caio Reisewitz)

A galeria de arte da Cemig abriga, desde o fim de semana, mostra coletiva 'Entre a Fotografia e o Desenho', dos artistas Paulo Whitaker, Fernando Augusto, Dulce Osinski e Caio Reisewitz, selecionados pela 12ª Concorrência de Talentos.
Paulo Whitaker, paulista, é graduado em educação artística pela UDESC desde 1984 e o seu currículo é recheado de exposições no País e Exterior. Fernando Augusto, baiano que foi radicado em Minas por muitos anos e agora é professor na Universidade de Maringá, no Paraná, é graduado em artes plásticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Com mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, tornou-se conhecido da crítica especializada a partir de 1995, quando de sua premiação no Prêmio Gunther de Pintura, numa promoção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.
Por sua vez, Dulce Osinski e Caio Reisewitz, nascidos no Paraná e em São Paulo, respectivamente em 1962 e 1967, são graduados pela Escola de Belas Artes do Paraná. Reisewitz, no período entre 1992 e 1997, fez especialização em fotografia e formação em artes plásticas na Universidade de Meinz. A reunião de obras que apresenta desenhos e fotografias é resultante do Projeto Atelier do Paraná, que propõe um período de convivência e de criação em artistas agrupados em número de quatro ou mais, com todas as despesas pagas, proporcionando o processo criativo sem nenhuma interferência.
Os desenhos recentes de Paulo Whitaker são uma extensão de seu questionamento das formas figurativas e abstratas, do colorido e do sentido do espaço: espacialidade versus visualidade. Salta aos olhos aquilo que permanece como uma padronização de repertórios que, praticamente, levam à mesma ressonância admirável em artistas como Tapies, Marden ou Kirkeby que não são releituras, mas aquilo que o artista considera incidentes gestuais que aparecem na superfície do desenho.
Já Fernando Augusto, com sua série de desenhos, pinturas e fotografia que vem elaborando nos últimos anos assim se expressa: 'Ao concebê-los pensava no cruzamento entre o ideal de precisão da arte construtiva-concreta e os impulsos emocionais da arte informal. Mas, se alguma imagem me vem à mente como elemento detonador de todo esse processo, tais como imagens dos instrumentos-aparelhos ginecológicos e de cirurgia médica'. Augusto diz ainda: 'não conheço tais aparelhos, mas seus desenhos e reproduções sempre me exerceram um duplo fascínio. De um lado um erotismo suspenso e invasor, indevido, alucinado, doente. Do outro: a racionalidade técnica da operação cirúrgica, asséptica, violenta e curativa. Estes aparelhos, concebidos dentro do mais alto padrão de rigor e precisão, operam um campo sempre impreciso: o corpo, a carne e o desejo'. Daí o jogo, racionalidade-caos e precisão-imprecisão, corpo-máquina. Enfim, a idéia de máquina, com todas suas engrenagens, não é apenas uma metáfora, mas uma operação conceitual, um pensamento racional de construção. Finalmente, de descendência polonesa, Dulce Osinski desenha objetos que carregam em sua forma e utilização significados dúbios e ambíguos, enquanto Caio retrata uma construção bidimensional do meio urbano em geral.
'Entre a Fotografia e o Desenho' marca um encontro de oposições e afinidades. É um lugar para não se estar, 'mas um espaço para se percorrer com os olhos, com indagações e até mesmo com a ponta dos dedos', convida Fernando Augusto, um dos expositores e curador da coletiva de quatro artistas contemporâneos num mesmo projeto e espaço. Para ele, é importante conectar essas duas áreas - fotografia e desenho, não por serem criações plásticas, mas por serem os meios mais eficazes de confrontar nossas idéias e influenciar nosso comportamento.
Paralelamente, antes da abertura da exposição foi realizada uma mesa redonda, onde eles falaram sobre o conjunto de trabalhos inéditos. Lamentável, pois o ideal seria fazê-lo no dia seguinte, porque o público, mínimo, não estava à altura dos participantes e do conjunto irrepreensível produzido a partir das propostas, incluindo-se aí a montagem, linguagens e técnicas variadas.

“Entre a Fotografia e o Desenho". Mostra coletiva reunindo propostas de Caio Reisewitz, Dulce Osinski, Fernando Augusto e Paulo Whitaker fica em cartaz na Cemig Espaço Cultural e Galeria de Arte (Avenida Barbacena, 1.200), até o dia 6 de agosto. Visitas de 8 às 19 hora, diariamente.

Morgan da Motta
21.07.2003