O luxo dos orixás


FOTOS: SÉRGIO ARAÚJO/DIVULGAÇÃO/DIVULGAÇÃO-CG

DESTAQUES: “Oxalá” (1), na visão de Cláudio Luiz; escultura em mármore (2) de Nelson Felix, e proposta de Cassio Giovanni




Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Inaugurada semana passada, na galeria da Soléa Tablado Flamenco, a mostra individual do desenhista Cláudio Luiz visa, antes de tudo, divulgar os Orixás. Composta de 13 desenhos, todos em lápis-de-cor sobre papel canson, retrata toda a beleza da força, da sensualidade e das cores dessas divindades. Por outro lado, procura-se despertar interesse nas pessoas em nível de pesquisa e maiores esclarecimentos, ou seja, sem preconceito e de maneira antropológica.
De origem africana, os orixás chegaram ao Brasil com a cultura dos negros escravizados, e não são deuses, como muitas pessoas, assim como em outras religiões, podem conceber, mas sim divindades criadas por um único Deus, que é Olodun (de acordo com a corrente Nagô) ou Zumbi (de acordo com a origem Bantu).
Enfim, são elementos da natureza, sendo cada um deles representante de uma de suas forças. Assim sendo, quando se cultua, cultua-se também as forças elementares da natureza, oriundas da água, da terra, do ar, do fogo.
Daí, essas forças em equilíbrio produzem uma enorme energia (axé), que segundo os iniciados auxilia no nosso dia-a-dia, ajudando a enfrentar os desafios da vida, sem medo de ser feliz.
Para os não entendidos, visualmente e através de pequenos textos, fica explícito o que é a proteção de Oxalá, a providência de Oxossi, a força de Ogum, o brilho de Oxum, a energia de Iansã e a justiça de Xangô, dentre outros que compõem essa cultura milenar.
Por sua vez, Cássio Giovani, que ingressou nas artes visuais através da fotografia, nos últimos anos tem se revelado excelente pintor, com seus óleos sobre telas, acrílicas e aquarelas, na maioria das vezes de tendência da “optical-art” (leia-se op-art). Influenciado no início da carreira pelo pintor brasiliense José Francisco Rodrigues, atualmente explora a linguagem própria.
As cores, que tanto permeiam suas obras, agora cedem a vez ao preto-e-branco, sutilmente elaborado e que surpreendem pela simplicidade das linhas e a temática com efeitos geométricos e sobreposições, que o faz um dos mais interessantes criadores de “op-art” não só em Minas, também em todo o Brasil. Enfim, seu poder de sínteses, suas propostas geométricas ora tensionadas ora harmonizadas, são detalhes que saltam aos olhos à primeira vista.
Fechando o leque dos destaques da semana, Nelson Felix, artista plástico e arquiteto, é um dos notáveis da geração 80 que, depois de estudar com Ivan Serpa, distingüe-se por suas propostas de suportes dos mais variados e pela utilização de materiais não muito usuais.
Sempre presente em bienais nacionais e internacionais, foi a partir de 1990 que Felix passou a trafegar pelas esculturas em mármore, na maioria das vezes tendo como base orgãos ou aspectos do corpo humano.
Em 1994, foi artista residente na Curtin University, em Perth, e no Karratha College, ambos na Austrália. Foi também a partir de tal data que passou a idealizar as mesas, ou esculturas em granito, nas quais faz referências à natureza e aos objetos culturais.
Há seis anos sem se apresentar em BH, quando expôs na Celma Albuquerque Galeria de Arte, retorna utilizando-se pela primeira vez com um mármore de cor, o Verona, junto com elementos aglutinantes como o ferro e o ouro, sendo que numa única sua proposta envolve apenas o ouro.
Deveras surpreendente, em se tratando de suportes e materiais.

“Orixás” De Cláudio Luiz - Na galeria do espaço Solea Tablado Flamenco (Rua Sergipe, 1199B, Savassi). Visitas no horário comercial. Até o dia 31.
Cássio Giovanni - Na Casa dos Contos (Rua Rio Grande do Norte, 1065, Savassi). Até 11 de novembro.
Sérgio Félix - Na Manoel Macedo Galeria de Arte (Rua Lima Duarte, 158, Carlos Prates). De segunda a sexta, de 10 às 19 horas. Até o dia 20.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

08.10.2007