Cor e Corpo

Homem Verde", da série Alvos, de Sebastião Miguel (Foto / Galeria Léo Bahia / BDMG)

Três exposições destacam a visão plural do corpo humano em interface com a arte contemporânea e seus desdobramentos.
Sebastião Miguel, trafegando pela pintura, pelo objeto e fotografias digitalizadas, apresenta 21 propostas que têm como mote o corpo. A partir de reflexões da feminista Camille Pagia e escritos do cineasta Pier Paolo Pasolini, foram construídas obras em diversos suportes, como pintura, fotografia e objetos de pequeno formato, sugerindo almofadas.
O artista realiza a crítica social, ao desfazer rostos pelo processo fade in - fade out, construindo corpos. Verifica-se a presença do universo greco-romano, regendo uma representação contemporânea, sobre o homoerotismo, o que é visto pelo artista como natural. Além disso, pelo conjunto das propostas, ele constrói observações sobre as vítimas da aids, mais temas do encontro, da perda, do corpo, do prazer e, antes de tudo, da solidão.
Outra mostra em cartaz remonta a 1989, desde quando, em seu primeiro ano de atuação, a galeria do BDMG reserva espaço para talentos emergentes. Ao longo desses anos, mais de cem artistas mostraram sua obras, depois de serem selecionados por uma comissão formada para esse fim. Agora, na seqüência do Calendário 2003, é vez da dupla mostra de Erik Fontes e Rodrigo Mogiz.
Fontes, que vai participar do próximo Resumo HOJE, no módulo Talentos Emergentes, nasceu em Belo Horizonte, em 1979, e está concluindo o Curso de Desenho, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele vai expor seis desenhos de 1 metro x 50 centímetros, em técnica mista. Ele trabalha com o corpo, que se sugere, por detrás da superfície, semi-oculto pelas camadas de pintura que o protegem, silenciam ou mesmo censuram.
A imagem - amplia espaços e fragmenta corpos, criando um panorama multifacetado - emerge, e quando toma corpo, não é mais corpo, e sim apenas signos. O que surge então é significativo: carne vira alma que vira carne, conforme avaliação do próprio artista.
Por sua vez, Rodrigo Mogiz, nascido em Belo Horizonte em 1978, formado em 2001 em Desenho pela Escola de Belas Artes da UFMG, “batizou" a série atual de “Idéias Costuras", sendo que algumas obras seriam desenhos feitos a partir de agulha e linha. É um trabalho realmente de costura, em que bordados de figuras e ícones falam de assuntos antagônicos, como religiosidade, sexualidade e seus desdobramentos.
O conjunto se insere em nível de novas mídias; no entanto, sem fazer malabarismos ou concessões, como o fazem uma boa parcela dos “imitadores" do pioneiro Leonilson. É um conjunto de figuras e objetos au grand complet, ou então, fragmentadas.
Finalizando o rol de destaques, vale conferir o que há de mais recente da produção de Gilberto Abreu. A série “Um Noturno para as Noturnas" vai estar em display na Galeria Travessa, a partir de quarta-feira. Trata-se de paisagem noturna iluminada por pequenos pontos de luz, pontuação essa que dá movimento ao silêncio estagnador da noite vista à distância _ de acordo com o que expressa o expositor no convite-texto.

Sebastião Miguel _ Na galeria Léo Bahia Arte Contemporânea (Avenida Raja Gabaglia, 4875, Santa Lúcia). De segunda a sexta, de 10 às 19 horas, e aos sábados, de 10 às 14 horas. Até o dia 27.

Erik Fontes e Rodrigo Mogiz _ Na Galeria BDMG Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1600), a partir do dia 19, próxima terça-feira. De segunda a sexta, de 10 às 18 horas. Até 9 de setembro.

Gilberto Abreu _ Na Galeria Traves (Rua Pernambuco, 1286, Savassi). De segunda a sexta, de 12 às 22 horas, e aos sábados, de 10 às 14 horas. Até 1º de setembro.

Morgan da Motta
11.08.2003