Artesanato em alta

O ÀS MÃOS DO POVO: Escultura em cerâmica e pigmentos de Ulisses Pereira Chaves (1); “Florista", de Maria Madalena Mendes (2), e “O Beijo" (3), de Amaury Ferreira (Fotos Joubert Cândido)

Nos anos 70, logo no início da década, havia apenas dois lugares destinados especialmente ao artesanato: o Centro do Artesanato Mineiro, no Palácio das Artes, e a (extinta) Galeria Codevale. A proposta no Palácio das Artes prossegue com dificuldades, e a demanda da Codevale passa ao acervo do Sesc, através de sua loja Cenarte, que continua selecionando e colecionando trabalhos de alguns artistas populares com acervo de valor inestimável.

Agora, o Sesc reúne a nata dessa produção, na mostra “Artistas Populares de Minas". São mestres na utilização do barro, que hoje têm seus trabalhos disputados no mercado. Eles aprenderam com pais, avós..., descendentes dos povos africanos ou indígenas.

Os africanos eram escolhidos pelas suas habilidades, e os ceramistas enviados para Minas e distribuídos nas regiões onde a argila era propícia à fabricação de utensílios domésticos, telhas e até manilhas. Deste encontro de trabalho e afetividade entre os povos indígenas e africanos surgiu a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, que continua preservada.
As bonecas de barro, por exemplo, se multiplicaram pelo Vale como num sonho em forma de noivas, grávidas, sereias de batom e penteado, nem sempre estampando um ideal de beleza. Na exposição, as bonecas de Ana Rodrigues surpreendem os desavisados por seus traços próprios, diferentes do ideal estético ocidental.
No mesma coletiva estão trabalhos de Ulisses Pereira, Noemisa Batista e sua (falecida) mãe Joana Batista e Margarita Pereira _ todos, assim como Ana Rodrigues, da cidade de Cará. Outros expositores de destaque são Isabel Mendes, Maria Madalena Braga e João Pereira de Andrade, de Santana do Araçuaí; Ulisses Mendes, de Itinga; Zezinha e Amaury Ferreira, de Minas Novas...
Há trabalhos de artistas que alcançaram prestígio internacional, caso de Geraldo Teles de Oliveira, o G.T.O., Zé Coco do Riachão e Mestre Orlando (todos já falecidos).

Além dos objetos, estão expostas fotografias dos artesãos e de curiosidades de seu cotidiano, registrado por Joubert Cândido e Margarida Rocha durante viagens ao interior mineiro.
Em outro ambiente, o da Casa Cor, a junção de dois módulos também prioriza e valoriza o artesanato mineiro e nacional. Se destaca o ambiente criado por Saul Vilela e Viviane Lima, em que o artesanato emoldura a arquitetura e a decoração.
A dupla desenvolveu o projeto do “Espaço Mãos de Minas". Encantados com as descobertas que o projeto proporcionou, os arquitetos utilizam estes painéis de fibras e cordas de bananeiras, estrelas de papel-marchê rebaixando o forro do espaço, luminárias de bambu e vários outros produtos do artesanato mineiro para compor o ambiente da Casa Cor.
No mesmo local, a decoradora Rosângela Nóbrega ambienta o “Armazém Sebrae", com teto alto e cores neutras, lembrando os antigos armazéns, para receber o artesanato brasileiro. Ali, o mobiliário de linhas retas, em ipê, contrasta com o revestimento das paredes em DuraWall. Vidros e espelhos dão o arte de contemporaneidade ao Armazém.
Contudo, nem só de artesanato se compõe o atraente painel das artes da semana em Belo Horizonte. Duas mostras individuais merecem destaque. Ana Pimentel, com seus desenhos “pintados", tem vernissage às 20 horas de amanhã, na Galeria Arlinda Corrêa Lima, sob o patrocínio do cônsul de Portugal, Frederico Silva, e na seqüência da série “Meu Próprio Espaço".
Por sua vez, Mônica Sartori reúne o que há de mais recente de sua produção artística na mostra “Dedicatórias", com vernissage marcado para 21 horas de quarta-feira, na Galeria de Arte da Casa de Cultura Estácio Sá. Mônica oferece desenhos, usando e abusando de sua marca registrada: as transparências e os grafismos.

“Artistas Populares de Minas" _ Na Galeria de Artes Sesc (Rua Tupinambás, 956). De segunda a sexta, de 12h30 às 18h30. Até o dia 31. “Mãos de Minas"/“Armazém Sebrae" _ Na Casa Cor (Rua Grão Mogol, 157, Carmo-Sion). De terça a sábado, de 15 às 22 horas, e aos domingos, de 13 às 20 horas. Até 19 de setembro. Ana Pimentel _ Na Galeria Arlinda Corrêa Lima do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537). De terça a sábado, de 12 às 20 horas, e aos domingos, de 17 às 20 horas. Até 15 de setembro. Mônica Sartori _ A partir de quarta-feirra, na Galeria de Arte da Casa de Cultura Estácio de Sá (Rua Erê, 207, Prado). De segunda a sexta, de 10 às 21 horas, e aos sábados, de 10 às 15 horas. Até 4 de setembro.


Morgan da Motta
16.08.2004