Cores do regional

ACRÍLICA (1) de Emmanuel Nassar, pintura primitivista de Marina Jardim (2) e Via-Crúcis de Cleber Ramos (3) - (Fotos Daniel Coury// MJ // Victor Macarenhas)

A galeria de arte Manoel Macedo abriga, a partir de quarta-feira, mostra individual de Emmanuel Nassar, que incorpora ao cenário das artes plásticas contemporâneas as raízes mais profundas de sua existência.
Paranaense da cidade de Capanema, Nassar explora toda a riqueza cultural de sua terra-natal, traduzindo as manifestações do comum para as paredes de conceituadas galerias de arte do Brasil e do mundo.
Ele nasceu em 1949, e traz em sua obras referências pessoais e experiências adquiridas em sua trajetória de vida de quem pretendia ser engenheiro, mas, em uma viagem à Europa, diante do contato com a arte, escolheu a arquitetura como profissão. A partir daí, as artes visuais passaram a ser seu maior expoente, com a paixão pela arte e pela publicidade, com a qual trabalhou até 1970. O regional, da cultura popular de muitas cores e elementos inconfundivelmente nortistas, faz do trabalho de Nassar um retrato que vai muito além do campo visual.

Na opinião das mestras em História da Arte Marisa Mokarzel e Rosangela Brito, ele promove a tensão entre o local e o global. Sua obra concilia dois extremos, o erudito e o popular, como fazia Alfredo Volpi. Nassar representa realidades sociais diversas, de um país marcado por divisores sócio-culturais extremados. Assim, as letras E e N, que acompanham a maioria de suas obras, representam não somente as iniciais do nome do artista, mas também a existência de uma dicotomia envolvendo o indivíduo e o coletivo.
Enfim, através de ícones da cultura popular do norte do País, ele expõe a riqueza do olhar sobre o que aparentemente é natural e comum.
Mas, por falar em comum, o que há de comum entre Cleber Ramos e Marina Jardim, além de trafegarem pelas cores da Cultura Popular? Sem dúvida, as lembranças da infância no interior, do folclore e das festas populares, que sempre se refletem na pintura dos dois artistas mineiros em exposição.

O traço primitivista, típico da escola naif, domina a produção atual de ambos. Cleber Ramos está com exposições em dois lugares: na Câmara Municipal e no Espaço Caminho da Luz, ao lado da Igreja de Lourdes, no jardim que dá acesso ao Museu Padre Sebastião Pujol. Inspirado pela Via-Crúcis, o artista, com traços marcados por cores vibrantes, retrata figuras humanas fictícias, das estações que marcaram os quinze passos da Paixão e Morte de Cristo.
Tendo como cenário obras arquitetônicas e outros espaços significativos de Belo Horizonte _ o Mineirão, a Igrejinha da Pampulha, a Estação Rodoviária, a Rua da Bahia, o Viaduto de Santa Tereza e a Igreja de São José _, ele chega à Favela, à Prefeitura Municipal, ao Mercado Central, Conjunto J.K., a Praça do Papa, o Palácio da Liberdade, Serra do Curral e Basílica de Lourdes.
Marina Jardim, artesã das cores _ conforme define seu marido, o cantor e compositor Rubinho do Vale _ ocupa toda a galeria de arte da Cervejaria Brasil com o que há de mais recente de sua produção. No convite-catálogo, assim se expressa Rubinho do Vale: ôVejo Marina Jardim como uma artesã das cores. Uma artista que brinca com as tintas como se estivesse brincando com cada roda, de peteca, de barquinhos na enxurrada, correndo atrás do `Boi de Janeiro` no ritmo dos tambores dos foliões. Seus quadros são cheios de meninos e meninas, e cada menina parece seu auto-retrato. Ela brincou nas rua de Rubim, no Vale do Jequitinhonha, bebeu na cultura popular sem perceber, e hoje mostra sua arte livre, leve, de cores fortes e movimentos suaves. Movimento é uma marca da pintura de Marina. Arte popular é a vida em movimento. Marina transporta para a tela, com singeleza e emoção, a essência do viver _ amor-fé-alegria".

Emmanuel Nassar - Na Manoel Macedo Galeria de Arte (Rua Lima Duarte, 158, Carlos Prates). De segunda a sexta, de 9 às 19 horas, e aos sábados, de 10 às 14 horas. Até 12 de setembro. Cleber Ramos _ Na Galeria de Arte da Câmara Municipal (Avenida do Contorno, Santa Efigênia). De segunda a sexta, de 10 às 22 horas. Até o dia 30. Mostra Via-Crúcis (No Centro Pastoral Claretiano, no Espaço Caminho da Luz, entre a Casa Paroquial e a Basílica de Lourdes). Marina Jardim _ Na Galeria Cervejaria Brasil (Rua Aimorés, 90, Funcionários). De segunda a sábado, de 12 às 24 horas. Até o dia 30.

Morgan da Motta
18.08.2003