A história em dois tempos


FOTOS: ORLANDO BENTO/DIVULGAÇÃO-COPASA

- “Casamento na roça” do mestre Manuel Eudócio
- Instalação de Heloísa Etelvina com 13 mil folhas de papel
- Banheira idealizada por Camila Michelini



Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

A capital mineira ganha, a partir de amanhã, de 10 às 20 horas, com repeteco na quarta e na quinta, no mesmo horário, um novo conceito de casa dedicada à arte moderna, contemporânea e artesanal fazendo contraponto com objetos e móveis antigos. A idéia inicial da capixaba, radicada em Minas Gerais, Germana Moro foi reunir alguns dos objetos que colecionou desde sua infância.
Tudo começou com fotos antigas da família e, atualmente, são mais de 300 objetos e móveis antigos. Enfim, Germana traz ao público o resultado de seu trabalho de “garimpagem”. Algumas das peças foram resgatadas por ela em seus locais de origem, como os balcões de venda encontrados no Norte de Minas, e as mesas de ourives no Ceará. “Esse é hoje um grande prazer que tenho: garimpar, encontrar uma peça antiga em seu lugar original, e restaurá-la”.
Instalada numa casa da década de 30, a M’boitatá tem aproximadamene 180 metros quadrados. O local vai abrigar, além de peças antigas, obras de escultores, pintores e ceramistas brasileiros, dentro de um espaço alegre e despojado, criado pelo arquiteto Cristiano Sá Motta.
Trabalhos de artistas populares como Tarcísio Andrade, Heitor dos Prazeres, Ulisses Mendes, Ulisses Pereira, Alcides Pereira, J.Borges, mestre Manuel Eudócio, Willi Carvalho, Márcio Amorim, Jadir João, Egídio e do erudito Sebastião Pimenta compõem o rico acervo.
O curioso nome da galeria faz alusão à lenda do Boitatá que, conforme Câmara Cascudo, é o primeiro mito registrado no Brasil. Foi o padre José de Anchieta quem se referiu pela primeira vez, na Carta de São Vicente, em 31 de maio de 1560, ao termo tupi que significa cobra de fogo.
Com vernissages previstos para amanhã, quarta e quinta, o chamado soft open, teremos, de 10 às 22 horas, o novo conceito de tríplice vernissage à Rua São Domingos do Prata, 475, bairro Santo Antônio.
Outra mostra de destaque, “68 - 40 anos depois” ocupa a galeria da Copasa. O ano de 1968 ficou marcado na história pela eclosão, em várias partes do mundo, de manifestações, principalmente de jovens, por liberdade sexual, política e de expressão, algo sem precedentes. Havia uma atmosfera de insatisfação e mudança que resultou na greve geral na França, em maio; a esperança da Primavera de Praga de humanizar o comunismo; nos States, a luta dos jovens era pelo fim da guerra do Vietnã, a não-obrigatoriedade do serviço militar que impunha a guerra às mãos dos que desejavam somente se unir em nome de um mundo mais justo e pacífico. No Brasil, no mesmo período, conhecemos o início da época mais sangrenta da Ditadura Militar, com o Ato Institucional nº5, o fechamento do Congresso Nacional e a proibição de toda e qualquer manifestação pública contra tal situação...
As propostas ou cenas do cotidiano através de pinturas, fotografias e instalações revelam as mudanças pelas quais o país passou e a política nesse intervalo de 40 anos mudou...Tal seleção contrapõe a maioria das peças elaboradas nas décadas passadas e, por que não?, outras mais recentes.
Destaque para Melissa Rocha, com a instalação “Proibido virar à esquerda”, bem como a instalação de Heloísa Etelvina, destaque no Resumo HOJE, edição do ano passado, com seu megabloco composto de 13 mil folhas sobrepostas, com tudo em branco na parte de dentro e, por fora, carimbado de confidencial. E ainda Camila Michelini, com sua proposta “Modus Vivendi”, através de uma banheira cheia de elemento vermelho que faz um mergulho nos crimes cometidos.
Quanto aos demais, talvez por não terem feito o “trabalho de casa”, correspondem ao verdadeiro “samba do crioulo doido”. Afinal, a maioria deles nasceu muitos anos depois, e os curadores, talvez, não tiveram oportunidade de explicar o que foi de fato 1968 - o ano que não acabou...
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“68 - 40 anos depois” continua em cartaz na Galeria Copasa, na Rua Mar de Espanha, 525, Santo Antônio, até 6 de julho, diariamente, de 10 às 18 horas.



(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

09.06.2008