Saudades da vanguarda


FOTOS: DIVULGAÇÃO/MAP


Na Pampulha: detalhes das salas especiais de José Ronaldo Lima, Dileny Campos, Terezinha Soares e Lótus Lobo




Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Cartaz imperdível até o próximo domingo, a mostra “Neovanguardas” preenche todos os espaços do Museu de Arte da Pampulha. A proposta da exposição é o reconhecimento público de criações da vanguarda mineira, rebatizada pela historiadora Marília Andrés de neovanguarda.

Discordamos do conceito. Afinal, isso ocorre nos anos 60 e 70, mesmo período das vanguardas do Rio, São Paulo, Pernambuco, Curitiba e Mato Grosso. Contudo, é estimulante rever trabalhos daqueles tempos, de quando integramos o júri de premiação de artistas como José Ronaldo Lima, Terezinha Soares, Décio Noviello, Lótus Lobo e equipe, Dileny Campos e, principalmente, a dupla Paulo Emílio e Beatriz Dantas, que conquistou o prêmio com vídeo-instalação em 1971, sendo que no ano seguinte, como curador-adjunto do presidente da ABCA, levamos para a Bienal Jovem de Paris, juntamente com a TV do Povo, proposta de um jovem francês. Também “Roma/Amor”, de Manoel Augusto Serpa Andrade, composta em formas de alumínio que, antes de desfazerem esta proposta conceitual, foi fotografada e lá está, devidamente registrada.
As palavras no gelo desmancharam-se na abertura da mostra no MAP, mas continua o registro de um dos primeiros trabalhos conceituais e contemporâneos lá premiados, bem como as instalações de Terezinha Soares, os objetos tatéis sensoriais e desenhos eróticos de José Ronaldo Lima e a instalação de Lótus Lobo com Luciano Gusmão e Dilton Araújo.
Os responsáveis maiores por isso são Conceição Piló, críticos como Mari’Stela Tristão, Jacques do Prado Brandão e o autor da matéria, juntamente com críticos do Rio, casos de Jayme Maurício, Clarival do Prado Valladares e José Roberto Teixeira.
Há várias lacunas, como propostas de Manfredo Souza Netto, José Alberto Nemer e Miguel Gontijo. Paralelamente, ganham destaque a semana de arte de vanguarda realizada por Frederico de Morais na Reitoria, quando Mari’Stela Tristão era curadora do espaço (Grande Galeria da Reitoria da UFMG). A mesma Mari’Stela, sempre esquecida, foi responsável pelo projeto “Do Corpo à Terra/Objeto e Participação” quando da inauguração do Palácio das Artes, com manifestações na Grande Galeria e no espaço do Parque, que ia do lado do Palácio das Artes até as proximidades do Lago do mesmo parque. Lá, as fumaças coloridas do Décio, os pregadores gigantes de Manoel Serpa, as trouxas ensangüentadas do Artur Barrios, atiradas no Rio Arrudas, e as galinhas queimadas do Cildo Meirelles eram uma maneira de criticar as torturas praticadas na ocasião e causaram tanta polêmica junto aos militares, inclusas nossas matérias publicadas nos idos de 1971 no Diário da Tarde, onde iniciamos na crítica (em 1966).
Enfim, os catálogos estão em display, as obras premiadas que provam o início da contemporaneidade no MAP em mostras contemporâneas das décadas 60 e 70 são provas vivas que a contemporaneidade chegou ao Museu de Arte da Pampulha muito antes do que se propaga.
Por outro lado, catálogos da mostra de que fomos curadores e da exposição de obras do “Corpo à Terra”, hoje na coleção do casal Regina-Delcyr Antonio da Costa e artigos publicados em Paris, no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, foram colocados à disposição dos curadores e não foram aproveitados.
A propósito, o tal catálogo recusado faz parte do “Information” do Moma, de Nova Iorque, do Information File (arquivo que trata de arte conceitual na América) e também de arquivos de museus europeus e do Canadá...


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

10.03.2008