A Bienal do vazio


FOTOS: DIVULGAÇÃO/MM

Tobogã (1) do belga Carsten Huller; Instalação (2) de Allan McCollum; Instalação-objeto (3) do grupo mineiro O Grivo; Fragmentos - letrões de isopor (4) da mineira Valeska Soares; For Moçambique (5) de Ângela Ferreira; Arquivos (6) de Mabe Bethônico e parquinho (7) da argentina Carla Zaccagnini


Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


A Bienal Internacional de São Paulo, que chega à vigésima-otiva edição, não mais representa os ideais do seu fundador Ciccilo Matarazzo, 58 após a sua fundação. Considerada há duas décadas como o maior programa da arte do país em interface com o que se criava em nível internacional, inclusive funcionando como termômetro da arte mundial, a Bienal não é a mesma.

O projeto reunia de 120 a 150 artistas nacionais e estrangeiros. A atual edição, que seria composta de 42 artistas convidados, está reduzida a apenas a 41 participantes - Rodrigo Bueno decidiu sair da mostra por não concordar com os dois curadores e seus critérios. Daí, qual é a saída do outrora maior programa do gênero do Brasil e da América Latina?
Conforme nossa matéria publicada no HOJE EM DIA em 20 de outubro (à disposição na nossa home page: “www.morganmotta.com”), o melhor atalho é se livrar de diretores-presidentes incompetentes e curadores despreparados que são ótimos em teorias.
As bienais estão em crise; no entanto, a última bienal de Veneza, depois de atingir o fundo do poço, recuperou-se com um curador único, o norte-americano Robert Storr. Por sua vez, a Dokumenta de Kassel, modelo que chega ao mesmo nível da paulista, principalmente depois da última.
Os resultados da atual: misto de parque temático ou simples parque de diversões não dá mais pé...
Nos resta sugerir reeditar edições como foram as bienais Nacional e Latino-Americana - de que participamos da seleção e até da premiação. Sim, havia premiações que resultaram em modelos que provocaram um senhor “up-grade” quando realizadas em anos anteriores da Bienal Internacional.
Agora, vamos ao pouco que restou e na ausência de propostas mais consistentes e interessantes, eis as poucas “dicas” a apresentar. Vamos nos pequenos e caóticos caminhos do que está à disposição no Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera e estará à disposição até 6 de dezembro. Se voce não viu a performance do grupo mineiro o Crivo no vernissage e nos 3 primeiros dias da inauguração, estamos falando daquelas pequenas engenhocas que nos remetem ao presépio do Pipiripau. São esculturas sonoras e precárias que produzem sons só audíveis graças instrumentos de alta precisão ou tecnologia.
Tem ainda as propostas do artista belga Carsten Holler, bem como o parquinho com balanço e gangora de Carla Zaccagnini, que é argentina naturalizada brasileira, bem próximo do Laguinho do Parque Ibirapuera.
Lamenta-se que a proposta conceitual do mexicano Erick Beltran, que vive e trabalha em Barcelona, só foi apresentada na abertura, como o grupo O Crivo. Sem dúvida, uma das poucas obras conceituais consistentes e à altura de uma bienal que pretende ser contemporânea e internacional.
Depois, saltando o espaço vazio do segundo andar, no terceiro vale dar uma olhadela na instalação “Desenhos”, do norte-americano Allan McCollum; “For Mozambique”, instalação de Angela Ferreira, fragmentos da mineira que vive e cria no bairro do Brooklyn, de Nova Iorque.
Por sua vez, a mineira Mabe Bethônico, que explora aquele nicho de artistas voltados para a criação a partir dos arquivos da bienal, numa tentativa de mapear preciosidades e pesquisas, infelizmente, praticamente, ficou restrita aos temas impressos no jornaleco que fala como era um pântano o parque Ibirapuera antes do prédio da fundação, amor pelo local que une todos os visitantes, operários que acharam ouro quando da construção, cupins no ibirapuera, tiririca a erva daninha encontrada lá, divisão que cuida de pássaros machucados etc e tal... Gostaria que tivesse mapeado escritos recheados de idéias, dos tempos em que a Bienal era levada a sério.
Tam bém lamento que Valeska Soares, que é filha da mais vanguardista de todas as artistas do período áureo da vanguarda mineira dos anos 60-70, Terezinha Soares, optou por uma simples capa de catálogo e pelo sopão de letrões em isopor. Talvez porque ela more do outro lado do East River, no Brooklyn novaiorquino. Se vivesse em Manhatan, onde me orgulho de ter estudado, trabalhado e vivido por quase 20 anos, a história seria outra.
A curadora Ana Paula Cohen, que se mostrou apreensiva com a tão decantada programação, com medo dos grafiteiros e até dos pichadores, estéticas em termos de arte, ainda na entrevista coletiva, insegura, jogou por terra a idéia da interação. Enfim, superficial, contraditória, inteiramente despreparada para a função...
Quanto ao Ivo Mesquita, que ousou quebrar as estruturas do espaço vazio ou cheio, que pena que a boa idéia não vá resultar em nada além do vazio...
Em tempo: Aracy do Amaral, decana curadora e crítica de arte, trocando em miúdos em recente entrevista falou praticamente o seguinte: se seus mentores, os dois curadores Ana Paula e Ivo, sabiam das condições, por que insistiram na empreitada? Quem não tem competência que não se estabeleça.
Ivo Mesquita respondeu: «Não estou preocupado se as pessoas virão», conforme declarou ao jornal Estado de São Paulo na véspera da abertura, dia 24 de outubro. Disse ainda: “O projeto curatorial discute a qualidade das relações e, se há desinteresse do circuito, estão merecendo a instituição que temos. Nós, como técnicos, curadores, propusemos e fizemos um trabalho”. Durma-se com um trabalho desses...


Bienal: Paralela, off e outros(as)

Na ausência de uma bienal consistente - a 28ª não o é - eis aqui algumas dicas para aqueles que vão no fim de semana in Sampa: Bienal Paralela, simultânea a Bienal de São Paulo, corresponde a uma coletiva organizada por 12 galerias e galeristas... Lá, estão reunidos 62 artistas ditos contemporâneos. Galpão do Liceu de Artes e Ofícios, Rua João Teodoro, 565. De terça à sexta 12, às 18 horas, sábados e domingos 10, às 18 horas.

Off Bienal, À Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 2074 - Pinheiros.De terça a sexta 10, às 19 horas e, aos sábados 10, às 16 horas.Fecha aos domingos.

Galerias - A Galeria Vermelha, referência em termos de vanguarda e contemporaneidade, com instalações e propostas resultantes de experimentações, como por exemplo, Massagens para os Olhos, cria um local onde os visitantes podem colocar máscaras de dormir para relaxar... a visão. Rua Minas Gerais, 350, Higienopólis das 11 às 17 horas. Sem dúvida faz às vezes da outrora vanguardista Fortes Vilaça que, desde a morte do marchand Marco Antonio Villaça não é a mesma... (Morgan da Motta-Dicas Especiais).



(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte - Orgão da Unesco.
Home Page: www.morganmotta.com
E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br


10.11.2008