Santa Desconstrução

PANORAMA: Mulher nua em tanque de água morna, dos irmãos Guimarães; cadeiras sobrepostas de Umberto Costa, instalação de José Damasceno e trabalho de Alex Villar, inspirado na arquitetura nova-iorquina (Fotos Guimarães/MAM)

Nivelada por baixo em edições anteriores, a exposição bienal do Museu de Arte de São Paulo, criada em 1969, alcança a 28º edição em novo formato. Pela primeira vez, a curadoria fica a cargo de um profissional estrangeiro, o cubano Gerardo Mosquera, que tem livre trânsito por toda América Latina e é curador-adjunto do Novo Museu de Arte Contemporânea, que fica no caldeirão criativo do Soho, em Nova Iorque.
A coletiva também deixa de ser um mapeamento dedicado exclusivamente à produção artística emergente no País, para se tornar temática, misturando artistas jovens e consagrados, brasileiros ou não, em torno de uma questão específica da arte contemporânea: desajuste de estruturas, sejam elas formais ou de conteúdo.

Curiosamente, trata-se de um “Panorama da Arte Brasileira" antipanorama, no sentido de rechaçar a oferta de uma pesquisa sobre o melhor da arte brasileira recente. Resume-se num conceito próprio e explícito.
“Não quis fazer um panorama", explica Mosquera. “A cena artística brasileira é muito diversa e o espaço do museu é muito limitado. Preferi um conceito". Assim, através de subversão, deslocamento e desordem agem como elementos aglutinadores.


Os expositores reunidos criam suas propostas em direções diferentes. Constam da relação nomes conhecidos do público, casos de Adriana Varejão, Cildo Meireles, Ernesto Neto, Fernanda Gomes e Paulo Chimachauska, e outros nem tanto, como Marcone Moreira e a espanhola Sara Ramo, o argentino Jorge Macchk, a chinesa Kan Xuan e o belga Wim Delvoye. Também constam participantes de edições anteriores do Panorama, como José Damasceno, José Guedes e Leonilson (morto em 1993, continua mais do que vivo em todas resenhas ou resumos da arte contemporânea).
Exemplos da criatividade são o (des)equilíbrio dos bancos sobre pedaços de giz, do carioca Umberto Costa Barros, e as fotos que inserem o artista Alex Villar na arquitetura de Nova Iorque.


Os irmãos Adriano e Fernando Guimarães, de Brasília, realizaram duas performances no vernissage (quinta-feira) e outras tantas no sábado e domingo. Do lado de fora do museu, dois atores emergiram de tanques de água morna e declamaram Becket. Em outra performance, bem no centro do MAM (parte interna), uma modelo escultural está dentro de uma caixa de vidro e some na bruma criada por sua própria respiração.
Por essas e outras, Mosquera, o curador cubano de prestígio internacional, se não supera todas as edições anteriores, tem um mérito: experimenta, ousa e brinca. Além disso, coloca o programa nos eixos, na direção certa.
Afinal de contas, repito, os curadores anteriores quase destruíram uma iniciativa da ex-diretora do MAM, Dinah Coelho. Agora, Mosquera dá fôlego e possibilidade de ressuscitar, em vez de acabar nivelado por baixo, conforme aconteceu com os curadores das três últimas edições. Que alívio!
(* Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.uptodatearts.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br.)

Panorama da Arte Brasileira - No MAM (Parque Ibirapuera, São Paulo-SP). Visitas às terças, quartas e sextas, de 12 às 18 horas; às quintas, de 12 às 19 horas; sábados e domingos, de 10 às 18 horas. Até 31 de novembro.

Morgan da Motta
20.10.2003