Bienal que vai Mal

Vera Mantero e sua performance nua em pêlo (foto divulgação Bienal)

Foram três dias de visitas e nove horas nos mais diferentes espaços do Pavilhão da Bienal Internacional de São Paulo. No entanto, logo de saída deu para conferir e sentir a contradição entre o tema “Território Livre", proposto pelo curador-geral, o alemão Alfons Hug, e a montagem. Se o território seria livre, por quê a divisão em categorias?

Para Alfons Hug, “o território livre da estética começa onde termina o mundo do dia-a-dia", no que erra na teoria e na prática, transformando a presente edição na mais pífia de todas as bienais.


Mas, há quem se salve, compensando uma visita a São Paulo, onde o mais divulgado programa de artes visuais brasileiro é cartaz até dezembro. Na entrada, vê-se um grande mapa-múndi feito de biscoitos que foram devorados antes de terminado o discurso do presidente Luiz Inácio da Silva. Bem ao lado, um Fusquinha vermelho fica girando aos solavancos, suspenso num suporte de ferro. No mesmo espaço térreo estão quase quatro mil toras sobrepostas no chão de Ivens Machado, sensação da mostra do Mercosul, em Porto Alegre. Tem ainda a barraca de lona da holandesa Jennifer Tee, o elefante empalhado de Huang Ping e a flor que fala, em instalação sonora sobre a parede.


Mas, quem isse que esse atípico parque de diversões acabou? Isso continua no primeiro andar, na performance “Comer o Coração", junção da escultura do português Rui Chefes e da performance da coreógrafa Vera Mantero, nua em pêlo. Ela canta e dança com o corpo pintado de caneta sobre um suporte-cadeira, criado com os mesmos apetrechos de um elevador que alçava a artista ao topo do Pavilhão. Depois da primeira semana, em vez da performance ao vivo, Vera é vista apenas em imagens numa monumental TV-Plasma. Interessante e recorrente às bienais das décadas 60 e 70...
Também merecem destaque o pássaro de palha do chinês Cai Guo Qiang, construído com tesouras e outros cortantes proibidos nos aviões desde o 11 de setembro, a jangada do conceitualista Artur Barrio Rio Lisboa e a torre de luz de Davi Batchelor, encerrando os efeitos do dito parques de diversões.
No segundo andar, a tão anunciada presença da pintura nacional e internacional é um fiasco, à exceção do belga Luc Tuymans, presente com telas inéditas. Quanto à brasileira Beatriz Milhazes, com suas pinturas decorativas, ficaria melhor numa Bienal de Arte Naif. Afinal, ela não passa de um produto de marketing que resulta em presença constrangedora. Melhor que estivessem ali o pernambucano João Câmara, o baiano César Romero ou os mineiros Fernando Pacheco, Miguel Gontijo, Décio Noviello e Tiago Fazito.

Paralelamente à Bienal, foi realizado, por iniciativa da Associação Brasileira de Críticos de Arte, o seminário Internacional “Arte, Crítica e Mundialização". Presidente da Associação Internacional de Críticos de Arte, Henry Meyric Hughes falou sobre mais de 50 bienais no mundo e sua decadência.

Quanto à versão brasileira, a Internacional de São Paulo, nossa opinião _ de quem acompanha seus altos e baixos há quase 40 anos _ é que sofre por conseqüência da ação de empresários e curadores despreparados. O último presidente, Manoel Pires da Costa, que vem da Bolsa dos Valores, não interferiu como os outros empresários que o antecederam. Ele tem um mérito todo especial: conseguiu captar os R$ 17 milhões investidos na Bienal, que desta vez oferece entrada franca.

26ª Bienal Internacional de São Paulo _ No Pavilhão da Bienal de São Paulo (Parque Ibirapuera, Portão 3, São Paulo-SP). De segunda a quinta, de 9 às 22 horas; aos sábados, domingos e feriados, de 9 às 23 horas. Visitas guiadas podem ser agendadas com antecedência pelo e-mail “monitoria@bienal-sãopaulo.org.br", ou pelo telefax 5549-0230. Entrada franca. Até 19 de dezembro.


Morgan da Motta
25.10.2004