Os dois lados das bienais



FOTOS: DIVULGAÇÃO/BV

- O coreano Haegue Yang (1), destaque em Veneza: fazendo do ar de própria respiração a performance da proposta “Respirando em Casa”

- Delson Uchôa (2) e Luiz Braga (3), no Pavilhão brasileiro, comprometem a arte a arte contemporânea brasileira. Escolha do crítico Ivo Mesquita



Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


Depois de 32 dias entre Veneza, na quinquagésima-terceira Bienal Internacional e a Mostra de Cinema, e outras cidades europeias, e considerando nossa presença em programas do gênero há 35 anos, podemos afirmar que as bienais estão em baixa.

Pois é. A mostra Dokumenta _ a última foi em 2007 _ em Kassel, na Alemanha, para surpresa geral não foi realizada por falta de dinheiro num dos países mais ricos do mundo. Estivemos em todas as edições, da primeira à última. E o que seria referência maior em termos de Bienal acabou em fiasco total (vide matéria em nossa home page de julho de 2007). Por sua vez, a de São Paulo, a tal bienal do vazio, levou a Fundação Bienal Internacional ao fundo do poço por seus ex-presidentes e curadores despreparados. Ao que parece, só ficou a Bienal Internacional de Veneza. A propósito, a de 2007, sob curadoria do norte-americano Robert Storr, foi das mais interessantes na duas últimas décadas. As demais têm se nivelado por baixo e o único "up-grade" aconteceu apenas uma vez com o competente curador Storr. Esta mais recente, que fica em cartaz até o final de novembro sob o título "Fare Mondi" (que pode ser traduzida como "Construindo Mundos" ou "Fazer Mundos"), apesar de esforços do presidente Paolo Baratta, vai ser reconhecida como a que restaurou e aumentou espaços, o que não é garantia de sucesso, mas significa pequenos esforços para melhorar. No Brasil, a única saída são as bienais latino-americanas ou bienais nacionais, das quais participamos como integrante dos júris de seleção e premiação. No ano da Bienal Internacional, valeria reunir o que há de mais contemporâneo dos anos anteriores ao que poderia ser ou uma bienal latino-americana, ou então, bienal nacional. Por outro lado, é preciso acabar de vez com as representações de países convidados pela Bienal e o Itamaraty e deixar como curador alguém que tenha mais de 30 anos de experiência e tenha viajado por outros países. Afinal de contas, com raríssimas exceções, os curadores jovens e inexperientes são sinônimos de desastre. No mais, aguardem a Parte II, ou seja, Nos Caminhos da Bienal, onde vamos indicar como e em quanto tempo visitar a Bienal de Veneza em lugares distintos como o espaço Giarddini, onde ficam os pavilhões nacionais, incluso o do Brasil. A propósito, no Giardini os grandes destaques são Bruce Naumann, no Pavilhão dos Estados Unidos, bem como pavilhões da Suécia, Dinamarca e Noruega, Rússia, Inglaterra e Canadá. Em tempo, na relação dos artistas no módulo Arsenale, à exceção de dois brasileiros, Lygia Pape e Cildo Meireles, bem como da espanhola Sara Ramo, radicada em Belo Horizonte, os demais brasileiros deixam a desejar, exceto os dois que estão no Pavilhão do Arsenale. O que esperar? Eles foram escolhidos pelo curador da última Bienal, Ivo Mesquita, aquele da bienal do vazio. Em tempo, os artistas selecionados _ sai de baixo e cruz credo! _ foram Luiz Braga e Delson Uchoa, com fotografias e pinturas escolhidas mais por suas ligações com o mercado (leia-se galerias). Pelo gosto comprovado do curador que conseguiu levar a Bienal de São Paulo para o fundo poço, é isso que acontece. Para se ter uma ideia, basta dizer que Aracy Amaral, conceituada crítica paulista e sua principal mentora, desancou o pau em matéria publicada em jornal de alto conceito in Sampa. De volta a Veneza, é claro, há coisas muito interessantes, caso do representante da Coreia, Haegue Yang, cujo trabalho conceitual resulta numa grande bolha que ocupou todo seu apartamento em Busan. Num espaço de 6,70 x 2,20, ele faz do ar de sua respiração a performance da proposta "Respirando em Casa". O Festival de Cinema encerrou-se dia 12 de setembro. A Bienal Internacional fica em cartaz até o dia 22 de novembro. Em tempo: Yoko Ono, a viúva do John Lennon conquistou o Leão de Ouro pelo conjunto da obra e pela sua contribuição à arte contemporânea. A brasileira Lygia Pape também foi premiada com valor menor, e o conjunto dos países escandinavos conquistou o prêmio em termos de curadoria.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte - Orgão da Unesco.
Home Page: www.morganmotta.com
E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br


12.10.2009