Dores e amores de Modigliani

Pérolas do século passado: Auto-retrato (1), cedido pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo; “Modelo Feminino Reclinado", feito em 1912 (2); detalhe de “Anjo de Olhar Grave" (3) e “Menina e Azul" (4), pintada em 1920 (Fotos Luxembourg)
Morgan da Motta (*)
Crítico/Artes Visuais

Para aqueles que têm viagens aos exterior programadas neste período de férias, a mostra das obras de Amedeu Modigliani, no Museu Luxemburgo de Paris, é atração imperdível. A retrospectiva reúne pela primeira vez excepcional conjunto, correspondente a um quarto de toda a produção do artista.
Um dos grandes artistas dos séculos XIX e XX, Modigliani morreu de doença pulmonar nos primeiros dias de 1920; logo em seguida, sua companheira, Jeane Hébuterne, grávida e desesperada, saltou da janela do sexto andar do prédio onde morava: nascia uma das mais sombrias lendas artísticas do século passado.
A exposição é apresentada pelo Senado: o Museu Luxemburgo é anexo ao Senado francês, e integra o megaparque Jardin du Luxembourg. Daí, seu atual nome, depois de inúmeras reformas e longo período de restauração.
Na exposição de tantas obras fundamentais, algumas têm especial importância para os brasileiros: o auto-retrato pertencente ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, e mais cinco pinturas vindas do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Essas criações convivem lado a lado com preciosidades de acervos de museus de Estados Unidos e Europa.
São apresentadas ao público obras raramente expostas na França, como os mais célebres retratos de Zborowski, os dos amigos, o de Paul Guilaume, os nus mais admiráveis, tudo comprovando que o artista tinha o dom de revelar a alma daqueles que pintava.
Ao conjunto de pinturas se somam magníficos desenhos, realçando outro aspecto essencial e indispensável da obra de Modigliani: seu trabalho gráfico, brilhante, tão virtuoso quanto o de Picasso ou Matisse, mas sempre relegado a segundo plano.
Fisicamente muito frágil, ele teve que abandonar, para seu grande desespero, a escultura, tentando o cubismo, o tachismo e o expressionismo, sempre denotando tristeza e marcando as etapas particularmente difíceis da vida, frente à doença onipresente, contra a qual buscava consolo nas drogas, no álcool e no amor.
Na Paris em plena Primeira Guerra, quando milhares de soldados morrem nas trincheiras, Modigliani tenta encontrar seu caminho inspirado nas artes negras, modalidade atípica para sua época _ repleta de referências italianas, mas também impressionistas, fauves e cubistas. Ele cria um estilo próprio, afastado do mundo e das realidades cotidianas.
Verdadeiro gênio expressionista, pintor atormentado que utiliza com grandiosidade a matéria e a referência à escultura, seu suporte favorito, Modigliani pode ser agora redescoberto.

Morgan da Motta
16.12.2002