Retrospectiva 2004 - Artes plásticas

Um calendário entre altos e baixos

O Calendário 2004, na base dos altos e baixos, demonstrou, acima de tudo, que os espaços alternativos, ao contrário de galerias de ponta e museus, superaram as expectativas em nível de experimentalismo.
Entre coletivas, individuais e leilões, o que ocorreu foram pequenas 'ilhas' de excelências fazendo contraponto a mostras sem nenhum interesse, através de programações monótonas e sem nenhuma razão de ser.
Faltou criatividade, assim como ousadia e boa vontade. Fora das galerias do circuito comercial, espaços culturais sem fins comerciais deram o tom.
Em termos de museus e leilões, salvou-se apenas o Museu Mineiro depois da restauração do prédio e recuperação do seu rico acervo e, principalmente, com o retorno da programação da grande galeria, onde acontecem às mostras temporárias.
Por sua vez, o Palácio dos Leilões, ao contrário das outras iniciativas, salvou a pátria. Os demais leilões foram desastrosos, predominando refugos de leilões realizados no eixo Rio-São Paulo, ou, então, peças agrupadas sem nenhum critério.

ENTRE COLETIVAS E INDIVIDUAIS OS DESTAQUES MAIORES DE 2004

MUSEU MINEIRO - No de correr de 2004, o Museu Mineiro retornou à mídia. Todas as peças do seu acervo foram colocadas em 'display' no primeiro andar (Museu de Arte Sacra).
Partindo da coleção 'Parreiras', adquirida no Governo Israel Pinheiro, passa pela coleção de arte sacra, que lá está em comodato com o Grupo Amigas da Cultura, que conta com a promessa de doação definitiva num futuro próximo, bem como todo o acervo do colecionador Hildegardo Meirelles, reunindo mobiliário, prataria e outros objetos de arte.
Na Grande Galeria do andar térreo, o retorno das mostras temporárias é fator de carrear afluxo maior ao Museu.
Daí, as coletivas 'Resumo HOJE', promoção do jornal HOJE EM DIA, dando realce àqueles que mais se destacaram no ano passado com seus três módulos: Universo do Colecionador, Artistas Convidados, Exposição do Ano; bem como 'Por que Colecionamos', envolvendo acervo, dentre outros, do ex-governador Eduardo Azeredo, Ana Amélia Faria e Maria Elvira Salles Ferreira.
Já a fusão de duas individuais rendeu dupla mostra: Miguel Gontijo e Marina Nazareth foram as atrações a partir do segundo semestre deste ano.
Tais eventos sem dúvida, trouxeram o Museu Mineiro de volta à mídia, o credenciando como destaque maior dentre os museus da cidade por sua programação dinâmica e variada.

'Abstração como Linguagem'

Ainda em termos de mostras coletivas, 'Nove Abstracionistas na Grande Galeria do Palácio das Artes', uma iniciativa do Banco Rural, foi o destaque maior na programação da Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, na Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes.
Com a curadoria tripla dos críticos de artes plásticas Jacob Klintowitz, Lisbeth Rebolo Gonçalves e Jayme Mauricio, a exposição reuniu pinturas e esculturas de mestres (alguns já falecidos), como Iberê Camargo, Yolanda Mohalyi, Manabu Mabe, Bruno Giorgi, Tomie Ohtake, Frans Krajcberg, Flávio Shiró e Kasuo Wakabayashi.
A abstração como linguagem pela riqueza do acervo do Banco Rural e o caráter didático resultaram numa das mais expressivas mostras vistas na cidade este ano e o único destaque na monótona programação da FCS/Palácio das Artes.
Além da mostra 'Resumo HOJE', coletiva citada acima na programação do Museu Mineiro, 'Bagagem Mineira', que representou os mineiros na mostra 'Uma Viagem de 450 anos', quando dos eventos dos 450 anos da fundação de São Paulo, foi destaque lá em São Paulo, mais precisamente no mês de janeiro, e, aqui, em Belo Horizonte, como realce maior na programação da Galeria Paulo Campos Guimarães, na Biblioteca Pública do Estado de Minas Gerais.
Trata-se daquela exposição que teve como suporte único uma mala de massa, ao estilo das utilizadas pelos imigrantes do século passado.
Outra coletiva que merece destaque, também no Museu Mineiro: 'Planta Topográfica de Belo Horizonte', promoção do Arquivo Público de Belo Horizonte. Inaugurada na semana passada, na galeria de mostras temporárias, a coletiva faz parte da programação do aniversário de fundação de Belo Horizonte, comemorado no início do mês.
Uma planta original de Aarão Reis, restaurada por Márcia Almada, é o ponto alto e referência maior do conjunto. De caráter histórico e didático, a mostra fica em cartaz até o final de janeiro. O Museu Mineiro fica na Avenida João Pinheiro, 342.

Alternativos em alta

Individuais dos artistas plásticos Inimá de Paula, Luiz Fernando Borgerth e Vania Barbosa, abrigadas na galeria da séde da RM Sistemas, alçaram o mais novo espaço cultural da cidade a uma posição de destaque neste 2004.
A propósito, Luiz Fernando, com seu surrealismo fantástico, exclusivo do Murilo de Castro Escritório de Arte, no entanto, teve participação efetiva na mostra acima citada e na coletiva de fim de ano da Travessa-Pic. Já está passando da hora da galeria, que detém a exclusividade do artista, realizar uma mostra individual ou retrospectiva de seus trabalhos.
Por sua vez, as pinturas de Rodrigo Ratton na Circo Bonfim, retrospectiva de Alvaro Apocalypse na Galeria Copasa (que permanece em cartaz até final do mês de janeiro), Carlos Bracher na Galeria Casa de Cultura Estácio de Sá. A revelação Ana Goretti, na Galeria de Arte Pic-Cidade, fecha o leque de excelências em termos de espaços alternativos.
Também pinturas e propostas em vidro e aço de Gracinha Pires, em comemoração aos 40 anos da galeria do espaço alternativo Chez Bastião que, depois de duas décadas sem promover nada, volta em cartaz dentre as ditas galerias alternativas.
Fora dos museus e alternativas, merecem referências especiais as individuais de Artur Omar e Rubens Gerchman no Murilo de Castro Escritório de Arte, bem como individual de Martha Neves, sob o título 'Cada um Goza Como Pode', na Galeria Leo Bahia Arte Contemporânea e Roberto Vieira na Marcus Vieira Galeria de Arte foram as que mereceram citações em nível de galerias do circuito comercial.
A Manoel Macedo Galeria de Arte foi feliz ao trazer propostas recentes de Cabelo.
No entanto, as individuais de Wanda Pimentel e Antomio Manoel, nomes representativos da vanguarda dos anos 60, infelizmente, com suas propostas atuais, sem o brilho e a ousadia do passado, demonstraram que voltaram às galerias em função do passado, e não do presente.


Morgan da Motta
29.12.2004