Mostra `Ciccilo' traz 121 preciosidades

01 - Giorgio de Chirico - O enigma de um dia, 1914
02 - Amadeu Modigliani - Auto Retrato, 1919
03 - Robert Rauschenberg - Sem título, 1994
04 - Wassily Kandinsky - Composição Clara, 1942
05 - Umberto Boccioni - Formas únicas da continuidade
no Espaço, 1913

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


O Você acredita na máxima de que, no Brasil, o ano só se inicia efetivamente após o Carnaval? Pois bem, em termos de cultura, não é diferente. Daí, é agora que começa para valer o calendário do primeiro semestre de 2006. Semana passada, somente na terça-feira, três atrações entraram em cartaz nas galerias da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes: são individuais de Alexandre B, Elder Profeta e Léo Brizola.
Na mesma noite, foi aberta excepcional mostra de Elton Lúcio, no BDMG Cultural já comentada aqui, no espaço. Finalmente, na quarta-feira, Dia Internacional da Mulher, foi a hora e a vez de Gracinha Pires e Marisa Trancoso. Também na quarta, Luiz Henrique Vieira teve vernissage na Galeria de Arte da Cemig.
Hoje, comentamos a mostra 'Ciccilo - Acervo MAC USP'. Na próxima segunda, faremos incursão crítica sobre os destaques maiores locais. Aguardem!
Você sabia que um dos acervos artísticos mais importantes do país nasceu de uma desavença? Logo depois de fundar o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em 1963, o industrial e criador da Bienal Internacional de São Paulo, Francisco Matarazzo Sobrinho, o 'Ciccilo', acrescentou à sua doação particular, de 448 trabalhos, 1.236 peças transferidas do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Como o MAM foi uma iniciativa sua, o mecenas fez a troca ao se desentender com a diretoria da instituição (aquele museu situado na monumental marquise do conjunto arquitetônico da Fundação Bienal Internacional de São Paulo - Parque Ibirapuera). Assim, o MAC ganhou pinturas de Kandisky, Modigliani, De Chirico, Morandi, Portinari e Anita Malfati, além de esculturas de Umberto Boccioni e Henry Moore.
Uma seleção de 121 dessas preciosidades/raridades presta agora tributo a Ciccilo, falecido em 1977, aos 79 anos. Além de apresentar a iniciativa de uma coleção pessoal transformada em patrimônio público, a exposição pretende motivar e divulgar a continuidade de doações ao MAC USP, retomando a importância da gestão de Francisco Matarazzo Sobrinho, ao doar obras exponenciais de arte de seu tempo à Universidade de São Paulo.
As doações de Matarazzo Sobrinho à USP ocorreram entre setembro de 1962 e fevereiro de 1963. Nesse período, transferiu para a Universidade aproximadamente 450 obras de sua coleção particular (entre pinturas, esculturas, desenhos e gravuras) e 19 obras de artistas estrangeiros da coleção que mantinha com sua esposa, Yolanda Penteado, além de 1.236 obras que pertenciam ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, incluindo várias premiadas nas Bienais Internacionais de São Paulo, que abrigou as importantes doações.
Conforme destacou em seu texto no catálogo, Elza Ajzenberg, curadora da mostra e diretora do Museu: 'Ciccillo deixou marcas expressivas no MAC USP que, se por um lado assinala seu eixo moderno em que apresenta as principais vanguardas do século XX, de outro busca as surpresas e aberturas para novas plataformas estéticas contemporâneas emergentes. Esta perspectiva está presente nos três eixos da exposição: Coleção Inicial, Questões Estéticas e Desdobramentos da Coleção, em um percurso que mostra importantes momentos da origem do acervo com propostas de Kandinsky, De Chrico, Modigliani, Picasso, Morandi, Boccioni, Tarsila, Anita Malfatti e Portinari, entre outros, ao lado de obras incorporadas ao acervo nas últimas décadas, de artistas como Henry Moore, Christo, Rauschenberg, Hélio Oiticica, Waldemar Cordeiro, Claudio Tozzi, Regina Silveira, Julio Plaza, Arcangelo Ianelli, Leda Catunda, Sérgio Romagnolo, Ary Perez, Denise Milan e Marco Gianotti, entre tantos outros'.
Afinal de contas, Matarazzo Sobrinho contribuiu excepcionalmente com a cultura da cidade de São Paulo e do Brasil. São dele iniciativas como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (1951), o Teatro Brasileiro de Comédia (1948), a Companhia de Cinema Vera Cruz (1949), a Bienal Internacional de São Paulo (1951), além do própria MAC USP (1963), entre outras. 'Ciccillo - Acervo MAC USP' revela o olhar contemporâneo atento de Matarazzo Sobrinho sobre as artes e os desdobramentos de sua iniciativa, estabelecendo os elos entre sua coleção particular doada à USP e as aquisições e doações que chegam ao Museu até os dias de hoje.
Em termos de arte de vanguardas e conceituados nomes da arte internacional do século XX, sem dúvida, trata-se do mais importantes acervo da América Latina.

Exposição coletiva 'Ciccillo - Acervo MAC USP', sob a curadoria de Elza Ajzenberg, em São Paulo. Visitas de terça a sexta-feira, das 10 às 18 horas. Sábados e domingos, das 10 às 16 horas. MAC-Sede (Rua da Reitoria, 160, Cidade Universitária). Entrada franca. Outras informações no site: www.macvirtual.usp.br.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

13.03.2006