Caminhos da Bienal



DESTAQUES: "Marulho" de Cildo meirelles(1), destaque em nivel de instalações, vídeo instalação de Marcelvs (2) e Andarilho (3) do videomaker e cineasta Cao Guimarães



Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

A mais nova edição da Bienal Internacional de São Paulo completa um mês de exibição a partir da sede no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Saiu o curador único, o alemão Alfons Hug por duas vezes o mais desastroso de todos, e entrou a curadora e historiadora Lisette Lagnado - nascida no Congo e naturalizada brasileira, com seus curadores adjuntos: proporcionando uma bienal sofrível e, por extensão sem os erros e vícios do seu antecessor. Sob o título “Como Viver Junto”, inspirado em seminários de Roland Barthes realizados no Collége de France em 1976 e 1977, ela propõe uma reflexão acerca da construção de espaços partilhados. Enfim, coexistência e convivência, ritmos de produção. Além disso, está conceitualmente situada na interseção de duas linhas de pensamento que Hélio Oiticica (1937-1980) desenvolveu: o sentido de construção, que está na base da experimentação neoconcreta, e o “adeus à estética”. Essas duas linhas se traduzem em “Projetos Construtivos” e “Programas para a Vida”.
Conforme escrevemos anteriormente, o que há de mais consistente - são raras as exceções - não está no Pavilhão, mas, como por exemplo as Instalações “Babel” e “Marulho”, de Cildo Meireles, na Estação Pinacoteca, prédio anexo à Pinacoteca do Estado, antigo prédio do Dops, próxima da Estação da Luz, sem falar no curta-metragem do mineiro Cao Guimarães, na primeira semana no Cine Bombril e a partir desta no Museu Lasar Segall. Ambas as atrações fazem parte da programação da Bienal de São Paulo. Por outro lado, mostras paralelas off, organizadas por vanguardistas em galerias de Sampa, demonstram, antes de tudo, que os curadores das galerias Vermelho, Nara Roesller e Luiza Strina, há mais de 32 anos em ação na paulicéia desvairada, não podem deixar de ser incluídos no roteiro off bienal.
Enfim, Cildo Meireles “rides again”, com “Bombanel”, concebida em ouro em 1970 na Luisa Strina, enquanto Hélio Oiticica reina por completo na Nara Roessler com piscina que permite ao visitante nadar ou interagir com a água e slides de carreiras de cocaína - ainda bem que são slides - referentes à instalação “Cosmococa CC4 Nocagions”, criada por ele em 1973.
Voltando ao Pavilhão da Bienal, nos caminhos da edição atual e sem perda de tempo ou energia, eis aí nossas indicações: Logo na entrada do prédio de Niemeyer, o visitante é recebido e apresentado à Bienal pela instalação de guardachuvas (sem nenhuma consistência) ao contrário das desempoladeiras até certo ponto criativas do baiano Marepe e pela monumental maquete de açúcar de Meschac Gaba, do Benin, que propõe uma união de cidade do Recife com metrópoles internacionais.
Logo em seguida, balão que corresponde a uns dois amdares em polietileno, do argentino Thomas Saraceno, nascido em San Miguel de Tucuman em 1973, que vive e cria em Frankfurt. Logo acima, vídeo que apresenta diferentes travestis baianos fora do show biz, com a cara lavada, e um outro
vídeo com modelos - garotas de programa ou prostitutas se preferem - desfilando criações da confecção Daspú, a mais conhecida confecção de trajes femininos cariocas dos últimos anos. As modelos extravagantes e as criações bastante comportadas. Sabe como é, com a safra das barrigas de fora e minis, fica difícil saber o que é e o que não é politicamente correto.
A gaúcha Lúcia Koch, de Porto Alegre, é outra presença estimulante, bem como o fotógrafo carioca Marcos Bonisson, o grego Nikos Charalambidis e Minerva Cuevas da Cidade do México finalmente as conceitualistas Ana Mendieta, de Havana, Atelier Bow -Wow de Tóquio e Barbara Visser da Holanada.
Ah!, que saudades dos tempos que as representações brasileiras, italianas, norte-americanas, francesas, japonesas e alemãs faziam a festa, perdão, a bienal propriamente dita.
A Bienal de São Paulo pode ser visitada até o dia 17 de dezembro, no Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera, aos sábados, domingos e feriados, de 10 às 22 horas, e das terças às sextas, de 9 às 21 horas. As instalações de Cildo Meirelles estão à mostra na Estação Pinacoteca, na Luz, Largo General Osório, 66, em Sampa.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

13.11.2006