As cores e as flores


FOTOS: KLAUS BOERGER/DIVULGAÇÃO-MM/DIVULGAÇÃO-OD

Acrílica sobre cartão (1) de Chrisálida Boerger, óleo sobre madeira (2) de Júnia Dantas, e “A rose is a rose” (3), de Gertrude Stein, em pintura de Ofélia Dias



Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Duas individuais simultâneas estão na Galeria do Pic-Cidade. Júnia Dantas expõe pinturas sobre madeira, fruto de pesquisa com estruturas a que vem se dedicando nos últimos anos, sendo que os retábulos fazem às vezes de azulejos com os mesmos resultados. Por sua vez, Marília Montemor usa espaços urbanos como lugares inóspidos relacionados com regiões mineradoras, fazendo contraponto com paisagens e sub-paisagens, fruto da ocupação desordenada do solo no geral e, em particular, no bairro Belvedere.

As propostas diversificadas se aproximam nas técnicas mistas que ambas adotam com vários tipo de tintas, pigmentos, terras, colas e, usando de toda a criatividade e liberdade que aprenderam na tradicional escola, elas constroem, destroem e refazem mil vezes seus trabalhos, até conseguirem as texturas e efeitos que procuravam para se expressar. Alguns trabalhos ficam prontos logo, outros demoram meses, até serem considerados terminados.
Graduadas em artes plásticas pela Escola Guignard da UEMG, em diferentes épocas, a amizade de toda uma vida faz com que seus caminhos se encontrem na arte e na vida. De tempos em tempos elas trabalham juntas, conversam, matam a saudade e, naturalmente, expõem juntas. Daí o título da dupla mostra: “Caminhos”.
A propósito, Júnia, que inclusive participou de uma das edições do Panorama da Arte Atual Brasileira no MAM de São Paulo, vai além da pintura sobre madeira: placas soltas permitem desde interagir, bem como construir-reconstruir algo que se aproxima a técnica dos restauros.
Outro grande destaque da semana, ícone da decoração mineira nas décadas 60 e 70, Chrisálida Boerger está de volta. Depois do período em que criou alguns objetos tridimensionais e praticou a pintura, no Rio de Janeiro, sob orientação da pintora Miriam Doll, a ex-aluna da Escola Guignard, com vários estudos complementares na Alemanha e na Inglaterra, rides again.
No total, são 21 propostas em acrílica sobre cartão e sobre madeira. O resultado mais recente desta incursão como pintora fica até o fim do mês na Galeria anexa ao Espaço Anadeu Scarpelli Flower Designer.
Famosa pelas cores vivas e economia em termos de composições cada vez mais diluídas ou simplificadas, ela retrata o cotidiano de forma alegre, apesar de deixar claro, com seus traços retos e fragmentados, que não pretende reproduzir fielmente a realidade. São flores e paisagens, incluindo espécies de plantas-baixas. Observá-las é garantia de uma dia leve e alegre, demonstrando o estado de espírito atual da multimídia artista.
Mudando de assunto e de suportes, a Exposição “Projeto Gravura - Serigrafia”, desde quinta-feira na Galeria Guignard, vence mais uma etapa com série de serigrafias. Em vigor desde 1990, o projeto é iniciativa das artistas Glória Lamounier, Edna Moura e Ana Cristina Brandão, que desenvolviam pesquisa com tintas de impressão solúvel em água, no atelier de serigrafia da Escola Guignard-UEMG, com o intuito de apresentar ao público uma mostra e os resultados das atividades desenvolvidas no gênero pela Escola Guignard.
Nesta exposição, os artistas professores participantes são Ana Critina Brandão, Cláudia Renault, Edna Moura, Eymard Brandão, Fabíola Tasca, Giovani Fantauzzi, Glória Lamounier, Humberto Guimarães, Marco Túlio Resende, Paulo Henrique Amaral, Paulo Roberto Lisboa, Pedro Augusto e o artista convidado Marcos Coelho Benjamim.
A serigrafia é uma possiblidade de produzir múltiplos de um mesmo original pelo preocesso silk-screen. A mostra deve ser vista inclusive pelo aspecto didático e a alta qualidade das propostas em display.
Inaugurada no mesmo dia, a individual de Ofélia Torres é outra boa pedida. Os poemas de Fernando Pessoa, Carlos Drumond de Andrade, Cecília Meireles e outros mestres da literatura foram a fonte de inspiração à artista plástica, que oferece 16 obras na mostra “Poetas Visuais”.
Ofélia apresenta três linhas de conceito: a ilustração de alguns trechos de poemas, a representação de paisagens brasileiras e a composição de cores.


Júnia Dantas e Marília Montemor
- No Pic-Cidade (Rua Cláudio Manoel, 1185, Funcionários). Visitas de segunda a sábado, de 6 às 22 horas. Até o dia 30. Chrisálida Boerger - Na Amadeu Scarpelli Flower Designer (Avenida do Contorno, 4477, Serra). Visitas de de segunda a sexta, de 9 às 18 horas. Até o dia 30.
“Projeto Gravura” (Serigrafia) - Na Escola Guignard (Rua Ascânio Burlamarque, 540, Mangabeiras). Visitas de segunda a sexga, de 9 às 21 horas, e aos sábados, de 9 as 12 horas. Até o dia 30.
Ofélia Torres - “Poetas Visuais”. Na Casa dos Contos (Rua Rio Grande do Norte, 1056). Até 5 de maio.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

14.04.2008