Roda mundo...

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


O CAMINHO EU MESMO TRAÇO : sem régua e compasso, artistas valorizam as formas circulares, na performance idealizada por Ana Gastelois (Foto Rachel Korman)

As exposições “Desafiando", de Ananda Sette e Tana Guimarães, e “Engrenagem", de Ana Lana Gastelois, são destaques na galeria da Cemig.
Elaborada pela dupla Ananda e Tana, “Desafiando" corresponde ao resultado da performance realizada durante a montagem do espaço, aberto à visitação. Elas prepararam um corredor em formato de “L", com chão e parede brancas. As duas artistas e dois convidados, Maurício Leonard e Lourenço Martins, percorreram o espaço, um de cada vez, com gizes coloridos nas mãos. Enquanto um fazia o desenho, o outro filmava, com a câmera da mão, acima da cabeça. Resultado: os desenhos e quatro vídeos, com as filmagens da montagem. A proposta está preenchendo o branco do corredor com o colorido dos desenhos.

Tomando como referência a mitologia grega, o trabalho reflete, de acordo com Ananda, o Mito do Minotauro. Os desenhos são fios, assim como os que Teseu usava para marcar o caminho, a fim de não se perder no labirinto em que entrara para matar o minotauro, um monstro que ameaçava a população ateniense.
Para circular pelo corredor, entendido como o labirinto, quatro TVs mostram simultaneamente os vídeos, que passaram por uma montagem (não seria edição, para sermos mais exatos) que a artista chama de orgânica, por exibir, em seqüência, quem desenhou o chão, a parede, até mesmo quem filmou.

Por sua vez, a proposta “Engrenagem" é a conseqüência da performance “Batedeira", de Ana Gastelois. Convidados da artista mineira fazem o desenho, com grafite, de um círculo em papel-canson ou na própria parede. Em seguida, o público presente ao vernissage é convidado a participar da performance. Ana explica que, nessa batedeira, o corpo se transforma em compasso, sendo que o ombro é o eixo.
Ana destaca, na composição da performance, o som produzido pelo atrito do grafite com a superfície rabiscada.

Ela apresenta ainda “Horizontes Prováveis", que mexe com os extremos do corpo humano. Assim como “Engrenagem", “Horizontes Prováveis" se caracteriza pela performance em que as pessoas realizam desenhos ao mesmo tempo em que ocorre a interseção de espaços.

Esse tipo de trabalho remete ao executado nos salões das bienais dos anos 70, principalmente a Bienal Jovem de Paris e o Salão de Arte Contemporânea do Museu de Arte da Pampulha. É o caso de “Matadouro", premiada e selecionada para a Bienal Jovem de Paris, em 1974.
Veterana que sempre trafegou pela tridimensionalidade, Ana Gastelois e a dupla jovem Ananda e Tana são amigas de longa data. A iniciativa serve, antes de tudo, para apresentar suas similaridades em termos de temas e diversidades artísticas. Cada um comparece com suas propostas. Assim, mais uma vez a desordem é o que provoca o diálogo e, até certo, ponto aglutina tudo em uma direção só.

Como se sabe, na arte contemporânea as fronteiras estão diluídas. E, quando não estão, a saída é causar deslocamentos ou subverter espacialidade versus visualidade. Sem dúvida, o diálogo quase impossível entre criadores e suportes mais uma vez sai vencedor

" Desafiando"/ "Engrenagem" - Na Galeria Cemig (Avenida Barbacena, 1200, Santo Agostinho). De segunda a sexta, de 8 às 19 horas. Até o dia 29.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

15.08.2005