Belas e feras


FOTOS: DIVULGAÇÃO - CRISTINA MONTHEIRO/USIMINAS


Cristina Montheiro (1) e suas fotografias (2) e (3) escultura de Ricardo Carvão Levy, e (4) objetos de Janeth Polck




Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Cristina Montheiro e Janeth Polck trafegam pelas interferências. A primeira explora as situações urbanas associadas ao objeto de arte de caráter contemporâneo, na maioria das vezes tridimensional em nível de esculturas ou objetos; a segunda transforma objetos utilitários, de preferência pratos de plástico transparentes e descartáveis, soldados a maçarico e dispostos em prateleiras. É o objeto em deslocamento e em novas posições-funções com a interferência do fogo e da fumaça. Sem dúvida, com seus deslocamentos, cada uma dá muito bem o seu recado...
A bela e talentosa Cristina Montheiro fez de tudo um pouco em termos de fotografia: moda, fotojornalismo, arte e seus desdobramentos. Daí, o que há de mais recente de toda a sua produção parte de paisagens e ambientes de Belo Horizonte e seu entorno, inserindo um objeto de arte que, em vez de interferir, corrobora com a paisagem. Ela apresenta propostas em termos de esculturas e objetos, na maioria das vezes do escultor Ricardo Carvão Levy.
O resultado desta virada em termos de fotografias pode ser conferido na Galeria do Mercure Hotel, que fica nos limites dos bairros Santo Antonio e Lourdes, na Avenida do Contorno, quase em frente da Igreja de Santo Antônio, no bairro do mesmo nome.
Ela visa antes de tudo, espacialidade versus visualidade, sendo que ao mesmo tempo privilegia tanto a paisagem como o objeto de arte em si. Sem exagero nenhum e, com o perdão da palavra: uma mulher bonita que fotografa bonito. E põe bonito nisto... Enfim, são monumentais fotos dosadas de grande maestria e contemporaneidade.
Por sua vez, Janeth Polck trabalha com interferências e apropriações elevadas à categoria da arte conceitual. O que há de mais atual de suas experimentações está na Galeria Hideo Kobayashi, do Centro Cultural Usiminas, Usicultura, na cidade de Ipatinga.
Janeth tem como mote de sua individual os utilitários de mesa em cerâmica branca, estilo louça, esmaltados e grudados, impossibilitando sua utilização. Os objetos do nosso cotidiano, que estão retidos, servem como metáfora para exprimir a falta de limites do homem contemporâneo. As interferências em fogo e fumaça simbolizam o freio desses sentimentos compulsivos que não se restringem aos desejos da comida e bebida, mas se estendem ao universo insaciável do ser.
Esses trabalhos resultam no Prêmio de Curadoria conferido a Janeth Polck em 2004, no Salão de Cataguazes-Usiminas de Artes Visuais. A premiação consistia no acompanhamento e na orientação crítica de seu trabalho por um dos membros da comissão de seleção/premiação e na curadoria da mostra ora apresentada. Foi um período de experimentação no qual ela aprofundou-se na pesquisa das possibilidades poéticas do universo cotidiano, eixo principal de seu trabalho.
Fernando Cocchiarale, principal curador do MAM do Rio de Janeiro, o “curador” escalado, assim se expresa sobre a artista e suas propostas: “Embora siga com as inquietações que anteriormente a moviam, a artista deu uma guinada em seu trabalho. Após a premiação, ela abandona os pratos descartáveis e passa a trabalhar com a própria louça - pratos, mas também xícaras de café e chá, pires, travessas, tigelas e garrafas - inicialmente por apropriação e, em seguida, intervindo no processo de sua fabricação. Agora, o forno e a esmaltação colam os objetos selecionados por Polck em oficinas de cerâmica utilitária. Não há mais aqui uma intervenção externa sobre os objetos, como ocorria na fase anterior. A matéria com a qual são habitualmente produzidos é a mesma que os funde e impede sua função. Em termos de apropriações e deslocamentos, Janeth Polck usa e abusa das experimentações e imaginação...

Cristina Montheiro - Fotografias. Até domingo, na Galeria do Espaço Cultural do Hotel Mercure (Avenida do Contorno, 7.315), de 8 às 22 horas, diariamente, inclusive aos sábados e domingos.
Janeth Polck - “Impedimento III”. Na Galeria Hideo Kobayashi do Centro Cultural Usiminas, em Ipatinga. Entrada franca e monitoria permanente, de terça a sábado, de 10 às 22 horas, e aos domingos, de 12 às 20 horas. Até o dia 23.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

17.03.2008