Mudança de Tempo


01 - Cartaz de apresentação da Bienal
02 - Proposta de Balaz Kicsiny
03 - Instalação de Ed Ruscha

Foto Divulgação: Bienal Internacional de Veneza

Centenário cartaz do calendário mundial, Bienal de Veneza cede às críticas e dá vez às mulheres.

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


Até 6 de novembro, está em cartaz a mais recente edição da Bienal Internacional de Veneza. A Bienal data de 1895; durante todo o século passado, serviu de modelo para mostras realizadas pelo mundo afora, incluindo a Bienal Internacional de São Paulo.

As representações de nações ou nacionalidades ocupam todos os espaços do Jardim, uma espécie de Parque, enquanto que a maioria de artistas jovens se mostra num conglomerado de galpões fora de uso da marinha, o Arsenal.

Uma novidade da Bienal: nos seus 110 anos de criação, pela primeira vez duas mulheres, Maria Corral e Rosa Martinez, são as curadoras. Aliás, é grande o número de mulheres artistas presentes, com a mulherada em display no Arsenal, tendo como mote o feminismo.

As integrantes do grupo Guerrila's Girls defendem maior participação das mulheres nas bienais, e com toda razão. França, Inglaterra e Estados Unidos só enviaram mulheres no final da década de 60, nos anos 80 e agora, em 2005.
Uma faixa traz os dizeres: "Por que as mulheres só entram no Met (Metropolitan Museu de Nova Iorque) apenas nuas?". Afinal, poucas foram as que realizaram exposições lá em toda a história. A grande maioria entrou numa na base das esculturas, dos desenhos e das pinturas, nuas em pêlo...

Não morro de amores pelas feministas radicais, mas elas atuam há mais de 20 anos e merecem todos os bravos e bravos; sem dúvida, salvaram o Pavilhão Arsenal.
As feministas do Guerrila's usam e abusam do bom humor e ironia e dão uma lição de arte contemporânea e conceitual. Por que não convidá-las para a próxima Bienal de São Paulo? Fica aí a sugestão para Lisete Lagnado, a curadora.

A propósito, com Robert Stor como curador-geral da Bienal de 2007, Veneza pode recuperar seu prestígio. Stor, além de diretor do Instituto de Artes Visuais da Universidade de Nova Iorque, é o principal curador do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.
Mas, de volta a Veneza, os destaques maiores são nomes conhecidos de outras bienais (a partir dos anos 70), escolhidos por Maria de Corral, que optou por Francis Bacon, Philip Guston, Antoni Tapies, Bruce Nauman, Thomas Ruff, Rachel Whiteread, Jun Yang. Os brasileiros são Cildo Meireles e José Damasceno.

A norte-americana Barbara Kruger foi a grande premiada com o Prêmio Leão de Ouro, por sua grande contribuição à arte contemporânea em toda sua trajetória. O outro premiado é o alemão de Dusseldorf Thomas Schutte, que ganhou sala especial com sabor de retrospectiva.
Os demais módulos focalizam nações, de A (Albania) a V (Venezuela), sem considerarmos o passado e sim a proposta presente ou atual. No Pavilhão Brasileiro estão Chelpa Ferro e Caio Reisewitz, respectivamente com instalação e monumentais fotos de Brasília (arquitetura externa e ambientes internos).
O espanhol Antoni Muntadas mostra seus gadgets (leia-se apetrechos), dos vídeos à internet, dando show de contemporaneidade.

A dupla inglesa Gilbert e George, sinônimo de marketing pessoal, repetitiva, vista e revista por bienais mundiais e museus dos dois lados do Atlântico, já não causa impacto como alguns anos passados...
O norte-americano Ed Ruscha traz suas pinturas imensas, desdobradas em instalação. Ele prova que, partindo da pintura e temática bem estruturadas e contemporâneas, pode-se alcançar as instalações e a arte conceitual sem fazer malabarismos de alto nível. Mesmo caso do húngaro Balaz Kicsiny que, com suas âncoras e manequins da proposta "Navegação", dá lições de instalação consistente, sem fazer concessões.
A instalação do grego Georgea Hadjimichalis, com situações comuns em hospitais colocados dentro de cubos e ampliados com lentes, sem dúvida é uma das mais instigantes e sutis.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

17.10.2005