Diário da rota Rio-Paris-Veneza



FOTOS: TURISMO DA FRANÇA/MAISON DE LA FRANCE/ENIT-TURISMO DA ITÁLIA

1 - No Centro Pompidou, mostra de mulheres do seu acervo

2 - Completando duas décadas neste ano, a Pirâmide do Museu do Louvre já foi adotada pelos parisienses e é uma das principais entradas para o complexo

3 - Uma cidade ou uma obra de arte? De qualquer lugar que se olhe, Veneza parece uma pintura



Morgan da Motta (*)
ESPECIAL PARA O TURISMO


Pois é, exatamente um dia antes de completarem dois meses daquela acidente da Air France lá pros lados de Fernando de Noronha, embarco no Galeão na mesma rota. Afinal, um raio não faz outro strike no mesmo lugar. No entanto, pelo volume de bagagens de mãos da maioria dos passageiros - e sem ser especialista em segurança de voo -, eis aí uma que deve ser uma das causas. Francamente, voltando da Europa ou dos Estados Unidos, não se vê nada disso. Mas, partindo daqui do Brasil e da América do Sul em geral, o abuso existe e persiste há mais de 40 anos.

O grande volume de bagagens, de verdadeiros mochileiros, não se restringe apenas à classe econômica. Existe também entre os "chics" e "distintos" passageiros da primeira classe e da Executiva. Seria em função do final das férias de verão do pessoal que reside lá no Hemisfério Norte? Havia um grupo de senhoras e senhoritas francesas que, pelas mochilas, acho que elas andaram acampando por todo o Brasil. Ouvi dizer que, depois do Rio e de Foz de Iguaçu, passaram pela Bahia (só pode ser Salvador ou Porto Seguro), pelo Recife, além de Fortaleza e Natal. Tanta gente circulando pelos corredores, acomodando ou reacomodando toda aquela tralha que contava até com Berimbau. Não foi à toa que, depois de alguns minutos da passagem sobre Fernando de Noronha, em função das correntes do Brasil e da África e do excesso de peso na cabine, muita gente pensou que teria repeteco da tragédia. Finalmente, depois de um jantar com solavancos que me fez pensar que, ao morrer, ao invés de ter as cinzas atiradas numa das praias de Ilhabela no litoral norte paulista, o cenário seria mudado para Fernando de Noronha, outra ilha tão bela como a minha Ilhabela. Vencido pelo cansaço, durmo e estamos quase chegando em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle, num dia de verão de muito céu azul. Quem disse que um raio cai no mesmo lugar? Ainda bem que não...

Bienal e Festival em Veneza

Desfrutando do belo dia de verão e céu azul, deixo minha bagagem na Rue Des Seine com Saint Germain Des Près, adquiro na primeira banca próxima ao Café Mondrian, meu vizinho de hotel e de interesses na França há mais de 35 anos, a revista que dá as melhores dicas de Paris no verão e outono. De saída, optei por uma mega mostra no Centro Pompidou, reunindo mulheres de todo o mundo que fazem parte do acervo da instituição. Lá está a primeira francesa que participou da Bienal Internacional de Veneza, bem como a primeira italiana e a primeira norte-americana. Depois, a opção foi visitar o Museu do Erotismo, onde estavam mais de 2.000 capas de discos de conteúdos eróticos. A mostra já foi encerrada, mas o Museu do Erotismo continua lá, com seus vários andares e material do ligeiramente ao declaradamente erótico. No aeroporto, começa tudo de novo. Turistas latinos - principalmente mexicanos e brasileiros - cheios de bagagens de mão, com a barulheira de sempre. Depois vem a reclamação dos seus lugares na Executiva e na primeira classe. Com pressa para chegar ainda naquela tarde em Veneza, noutro dia de verão e muito céu azul em Paris, conformei-me em ir de classe econômica desde que fosse compensado com mais milhas. O avião saiu com 30 minutos de atraso. Em Veneza, também de céu azul e calor de rachar, ao contrário do primeiro pit stop in Paris a chateação foi a espera pela bagagem. O aeroporto Marco Polo é pequeno e a Anac de lá esclarece que eles não têm nada com as bagagens, é problema da empresa terceirizada que cuida do assunto. Resultado: fugindo do ar-condicionado do hotel e aproveitando da "fresca da noite" fiz minha primeira incursão na Praça de São Marcos, onde comi uma senhora massa com uma taça de vinho tinto e sobremesa com muito sorvete - um excepcional gellato... Dia seguinte, de muito sol, vou para a Bienal de Veneza no Giardino, antes de me mandar para o Lido, onde ficam as assessorias de imprensa da Bienal Internacional de Cinema e do Festival. Não queria perder de maneira alguma a estreia do festival e do filme do Tornatore. Daí para frente, foi aquele esquema de vapore ou táxi, pequenas lanchas (daquelas chamadas por aqui de "tamancos") entre o Arsenale e o Giardino de dia, e o Lido - templo do festival de lá - praticamente todas as noites. Não foi preciso esperar o final do festival para descobrir que, além das starlets, os que iriam fazer e fizeram sucesso foram Tornatore; Michael Moore - um monstro de gordo; Hugo Chavez, o "ditador" venezuelano; o diretor de cinema norte-americano Oliver Stone; e o ator George Clooney, que, acredite se quiser, está com casa em Como, Itália, e namorando uma bela italiana. Enfim, depois de 12 dias em Veneza, chegou a hora de tomar o táxi, aquele barquinho, me mandar para o aeroporto Marco Polo a fim de encarar Milão, sem direito a reformar o guarda roupa... Os preços em euros estão astronômicos. Ah, que saudades dos tempos das liras... A confusão no aeroporto é grande, exatamente às 7h45 da manhã. De lá para Milão, e de Milão para Paris de novo... Da capital francesa para Londres fui - que alívio! - via túnel pelo EuroStar e, com pouca bagagem, para a estação de Waterloo, bem próxima ao meu hotel, nas cercanias do Museu Britânico e próximo dos meus museus e teatros preferidos de Londres. Na sequência, Paris de novo; Amsterdam, que tem tantos museus magníficos; e voar de volta, de KLM, no voo diurno, deixando Amsterdam às 10h20 e chegando no Aeroporto de Guarulhos exatamente às 21h20 da Europa (16h20 no Brasil). Seguiu-se a entrevista sobre a gripe suína, ou influenza A, e a passagem pelo Duty Free. Foi o que causou meu primeiro estresse depois de maravilhoso período de 33 dias pelas "Orópas"... Viver a vida é ótimo, principalmente quando se faz muitas viagens e adota a linha de que a vida é um banquete, conforme escreveu em sua biografia Rosalind Russell.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte - Orgão da Unesco.
Home Page: www.morganmotta.com
E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br


22.10.2009