Dupla dinâmica


ALGUNS TRABALHOS : Instalação “Sementes" (1), de Leandro Gabriel; acrílica sobre tela (2) e escultura em cerâmica (3) de Selma Weissmann (Foto Divulgação)

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


O escultor Leandro Gabriel, revelado na coletiva Resumo HOJE na década de 90, foi o primeiro artista mineiro selecionado para inaugurar a versão mineira das exposições do Circuito Cultural Banco do Brasil. Ele apresenta a instalação “Sementes", reunindo sete esculturas em ferro e solda, de 1,8 x 1,3 metro cada uma. A intenção é transformar o espaço expositivo em local de reflexão e fruição estética.

Conceitos como o de espaço e amplitude, além de materiais diversificados, caracterizam o que há de mais recente de toda a sua produção. São obras nada convencionais, que integram-se e estimulam o espectador. A isso dá-se o nome de construção da imaterialidade. Por outro lado, conforme alguns críticos e estudiosos, o que é construção para uns não passa de desconstrução dos movimentos concreto e neoconcreto em termos de esculturas, objetos e até instalações.
Para o professor Sérgio Vaz, que o apresenta, “as esculturas em chapa oxidada são resultado de várias metamorfoses do material que, no decorrer destes últimos dez anos, tem sido veículo mutante do diálogo do artista com o mundo. Qualquer que seja a leitura do espectador, ninguém escapa à sensação de estar diante de formas vivas, donas de uma individualidade e movimento peculiares, ainda que façam parte de um todo".

Com obras no acervo do Museu de Arte Contemporânea de Brasília e em exposição permanente no Parque Estadual do Rola Moça, no ano passado Leandro Gabriel foi destaque na coletiva “Tridimensional na Arte Contemporânea", sob nossa curadoria, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP).
Outra mostra de destaque é a de Selma Weissmann. Ainda adolescente, a pintora e desenhista fez sua primeira exposição, no então Departamento Cultural e Artístico do Minas Tênis Clube. Agora, por ocasião do 70º aniversário do clube, ela foi convidada à mostra “Cidades e Figurantes", na galeria de arte do Minas II.

Selma segue sua trajetória, misturando a tendência expressionista e às vezes surrealista com novas pinturas, através de conjunto de 15 acrílicas sobre telas.
Ela exibe também seis esculturas na técnica cerâmica, que Selma vem desenvolvendo sob orientação de Liege Mendes. Esses trabalhos demonstram, antes de tudo, uma grande virada no processo criativo em termos de esculturas.

Mas, não faltam as pinturas expressionistas, fazendo “pendant" com trabalhos da nova fase _ até certo ponto considerada surrealista, demonstrando uma carreira em evolução, ou seja; sem se desligar por completo das fases anteriores.

Também merece ser visitada a exposição Pintura Contemporânea, ora em cartaz na Galeria Agnus Dei. A mostra, que entra na última semana, é mais que uma simples coletiva: trata-se de oportunidade de conferir 30 propostas de sete conceituados artistas contemporâneos mineiros que trafegam pela pintura.

Utilizando óleos, acrílicas, grafite sobre telas e placas de resina, estão representantes das gerações intermediárias, nova e novíssima. Beatriz Abi-Acl mostra montanhas que são quase abstrações, com verdes, terras e erosões que propiciam vereda diferente a cada espectador. Fernando Pacheco oferece situações que pairam nos limites do expressionismo e do realismo fantástico. São na sua maioria, referências do seu dia-a-dia e do seu entorno.

Décio Noviello usa e abusa da espacialidade versus visualidade, dando ênfase a espaços estanques de uma mais nova série: “Imagens da Violência". Demilson Vigiano, com seus monumentais trípticos, contempla ao mesmo tempo o passado e o presente com seu conjunto hiper-realista. Laís Sobral mistura técnicas variadas como a colagem, a pintura e o desenho, criando propostas que são abstratos recortes de memória, resgatando a valorização estética daquilo que foi descartado Marcelo AB apresenta a transformação da paisagem em sítios arqueológicos onde são radiografados homens, mulheres, Giottos, Aleijadinhos, imagens bizantinas e barrocas.
Finalmente, Miguel Gontijo, através de sua mais nova série, uma homenagem ao cinema, realça o clima da nouvelle vague e das fotonovelas.

" Sementes"- De Leandro Gabriel. Na Galeria Genesco Murta do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro), de terça a domingo, de 12 às 20h30. Até o dia 29.

Selma Weissmann - Pinturas e esculturas. Na galeria do Minas II (Avenida Bandeirantes, 2323, Serra). Diariamente, de 10 às 22 horas. Até 12 de junho.

"Pintura Contemporânea" -
Exposição coletiva na galeria Agnus Dei (Rua Santa Catarina, 1155, Lourdes). De segunda a sexta, de 9 às 18 horas, e sábado, de 9 às 13 horas. Até sábado, dia 28
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(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

23.05.2005