Bienal 2006, considerações

- Obras de Cildo Meirelles, que este ano está fora da Bienal em protesto (Fotos: Wesley Rodrigues)

- Cao Guimarães, um dos convidado mineiros para a Bienal deste ano (Foto: Frederico Haikal)


Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Este ano, 119 artistas foram selecionados e convidados para a próxima edição da Bienal, que vai ser realizada de 7 de outubro a 17 de dezembro, no Pavilhão da Bienal de São Paulo. Participam os mineiros Cao Guimarães, Mabe Bethônico, Marcellvs (videomaker) e Rivane Neuenschwander (ela esteve na Bienal de Veneza no ano passado). Por fim, Cildo Meirelles, presença brasileira nas últimas duas décadas em todas bienais internacionais, resultou na única baixa. Sua ausência é um protesto contra a presença na Fundação Bienal do ex-banqueiro e colecionador Edemar Cid Ferreira, reconduzido ao cargo de conselheiro da instituição, apesar de estar preso, no Presídio Tremembé, no interior paulista, sob a acusação de formação de quadrilha e gestão fraudulenta. Na internet, são muitas as assinaturas contra a presença do ex-banqueiro no Conselho na internet, do qual também este crítico participa.
Já são quase 60 anos de existência da Fundação Bienal de São Paulo. Entre altos e baixos, alguns sucessos, vários insucessos, a cada edição, sempre se tenta fazer algo para dar uma levantada na combalida mostra internacional. Nos anos 70, por exemplo, foram realizadas a Pré-Bienal e a Bienal Latino Americana. Juntamente com os críticos José Roberto Teixeira Leite, Jacob Klintowitz, Liseta Levy, numa espécie de colegiado de curadores, este crítico viajou todo o Brasil a fim de selecionar e convidar artistas do Brasil e da América Latina para participarem destas mostras. Depois de participarem das prés-Bienais, pelo menos metade dos artistas garantiam presença na Bienal Internacional do ano seguinte.
Por exemplo, aqui em Minas, no surgimento da Fundação Palácio das Artes, uma mega-coletiva reuniu 45 artistas mineiros e todos foram aceitos para pré-Bienal. Na sequência, após tanto a Pré-Bienal como a Latino Americana, deram um up-grade à Bienal, com 15 a 35 artistas convidados de diferentes regiões, que asseguraram presença e até conquistaram prêmios aquisitivos. Atualmente, fala-se sempre que as bienais estão em crise, salvando-se apenas a Dokumenta de Kassel, na Alemanha. Ano passado, a Bienal de Veneza, por exemplo, foi uma das mais decepcionantes.
Visando valorizar a Bienal Internacional e seus diferentes módulos, entre 4 e 5 de agosto, acontecerá o seminário “Vida Coletiva”, no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, com o curador-geral Lisette Lagnado no comando, e com a participação de Catherine David, Celso Favaretto, Jane Crawford, Jeane-Marie Gagnebin, Peter Pal-Pelbarft e Yuko Hasegawa. Com o mesmo objetivo, nos dias 9 e 10 de outubro, o seminário “Trocas”, organizado por Rosa Martinez (uma das curadoras da Bienal de Veneza do ano passado), que reunirá Carlos Jiménez, Maria Rita Kehl, Nicolas Bourriau, Paulo Herkenmhoff, Renata Seleci e Santiago Sierra. Finalmente, em novembro, será a vez do seminário “Acre”, organizado por José Roca, visando debater questões sobre territórios e fronteiras. Como convidada especial, a Ministra de Estado do Meio Ambiente, Marina Silva.
Em abril passado, já foram realizados os seminário “Arquitetura”, sob a organização de Adriano Pedrosa, e “Reconstrução”, sob curadoria de Cristina Freire. Brilharam o francês Jean Marc Ponsot, o libanês Tony Chakar e o russo Viktor Missiano. quanto aos outros participantes, fez com que este crítico se sentisse no túnel do tempo. Como se voltasse ao início dos anos 70, quando na Bienal Jovem de Paris, aos 34 anos, participei como curador-adjunto da representação brasileira, juntamente com o curador-geral Antonio Bento, presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte e, na época, com 81 anos de idade. Foi um senhora experiência para o crítico estreante.
Enfim, ao que parece, a junção das prés-Bienais, somadas aos seminários paralelos e pelo fato de, pela primeira vez, terem sido abolidas as representações nacionais - os artistas agora são convidados através do curador-geral e dos curadores-adjuntos - quem sabe será alcançado o projeto geral para ressuscitar a Bienal Internacional de São Paulo.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

24.07.2006