Aos mestres, com carinho


FOTOS: DIVULGAÇÃO/MM

Pintura de Petrônio Bax (1) sobre a paleta e Amilcar de Castro (2) e (3) uma de suas esculturas



Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


Duas retrospectivas - Bax e Amilcar - de dois ex-alunos dos mestres Alberto da Veiga Guignard e Franz Weissmann levam à reavaliação da importância da Escolinha do Parque, atualmente Fundação Escola Guignard da UEMG. O primeiro, Petrônio Bax, e o segundo Amilcar de Castro, respectivamente, na Grande Galeria da Fundação Palácio das Artes e na Casa Fiat de Cultura. Enfim, o que ocorreu de positivo e negativo nos diferentes eventos, considerando suas respectivas grandiosidade e monumentalidade.
Mesmo assim, ocorreram equívocos e mal-entendidos. Gostaria que fossem mais que perfeitos; no entanto, sob a ótica de curadoria aconteceram lacunas, overdose de propostas e até pichações, não em nível de propostas, mas sim em termos de segurança.
Fazendo um paralelo entre a retrospectiva de Bax em 1993, no Museu Mineiro, e a encerrada ontem, na Grande Galeria da Fundação Palácio das Artes, saltam aos olhos que a primeira foi realizada mais ou menos na base da improvisação e supercialidade. A mais atual, sob a curadoria de Luís Augusto de Lima, ao contrário pode ser considerada como referência em termos de retrospectiva e curadoria bem-cuidada. Nada de economia e de exageros. Tudo na medida certa e à altura dos 80 anos deste mineiro nascido em Carmopólis e ex-aluno de um dos primeiro grupos dos mestres Guignard e Weissmann. Sem dúvida, o mais autobiográfico e o que mais cedo encontrou sua linguagem.
Signos ancestrais de uma mitologia marinha, memória remanescente do país de seu pai (holandês), território conquistado ao mar e conquistador dos mares; recordações da infância e do ambiente religioso não menos ligado à mítica do mar, como o dos portugueses da sua família materna (leia-se brasileira de nascimento).
Petrônio Bax, profissionalmente, Bax, filho de holandês com brasileira, com suas paisagens submersas - subaquáticas, como ele sempre classifica - soube fundir como nenhum outro a Holanda com seus mares e seus diques e as montanhas de Minas. Pairando entre os limites do expressionismo e do surrealismo, das suas mãos sempre saem seus cenários prediletos. Peixes, cavalos-marinhos e algas conjugados inusitadamente com figuras humanas e temas sacros, elementos centrais que marcam e dialogam toda a trajetória e singularidade de sua obra.
Integrante de um dos primeiros núcleos da geração Guignard, ao lado de Mário Sílesio (um dos líderes do movimento construtivista na capital). Além disso, sua trajetória artística se confunde com o surgimento, desdobramento e consolidação do movimento modernista no Estado. De um lado, Juscelino com o conjunto arquitetônico da Pampulha, do outro o mestre Alberto da Veiga Guignard dom a chamada Escolinha do Parque.
Encerrada ontem, na Grande Galeria da Fundação Palácio das Artes, pela cuidadosa curadoria, seria das mais justas a sugestão de itinerância por outras cidades mineiras. Fica aí a sugestão.
Por sua vez, muito criticada com sua inauguração com obras do Museu de Arte de São Paulo, também conhecido como Museu Chateaubriand, seguida de “Speed - A Arte da Velocidade com obras de acervos de museus italianos e preciosidades futuristas do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP), finalmente rendeu-se aos mineiros, com a megaexposição de Amilcar na Casa Fiat, situada em Nova Lima e ns praças J.K. e da Liberdade. Paralelamente, palestras de críticos do eixo Rio-São Paulo como se não existissem conceituados críticos de arte em Belo Horizonte - com destaque para Ferreira Gullar, companheiro de Amilcar no movimento neo-concreto (turma do Rio).
Na Casa Fiat, pecou-se pela repetição: vê-se tudo que já foi visto; como exemplos, as propostas de porte médio recortadas e as em madeira.
O ponto alto foram as megas toneladas em ferro e aço, na Praça da Liberdade e principalmente na Praça J.K. Lamenta-se que a grande maioria foi pichada, o que prova mais uma vez a falta de educação do povo e a falta de previsão dos seus organizadores que, com patrocínios milionários deixam a segurança à deriva. Por outro lado, ficou esclarecido que de agora em diante a cidade de Belo Horizonte e, por extensão o Estado de Minas Gerais, passa a fazer parte da agenda em termos de eixo-curatorial. Além disso, é estimulante e saudável ficar sabendo que as peças da coleção Márcio Teixeira, logo após o encerramento, serão transferidas em definitivo para a cidade mineira de Dom Silvério, terra do colecionador, para um museu a céu aberto que já esta em fase de implantação.
Enfim, aqui mais próximo, em Nova Lima, fica o Instituto Amilcar de Castro, criado pela família, bem como em espaços públicos e privados de Belo Horizonte, que merecem destaques como os que estão na Assembléia Legislativa no Bairro Santo Agostinho, na Câmara Municipal no bairro Santa Efigênia, no Colégio Pitágoras, no Centro, no Museu de Arte da Pampulha, na Pampulha, Praça Renato Azeredo (Praça Alaska), no bairro Sion, no Tribunal de Contas, na Cidade Jardim, no Parque de Exposições da Gameleira, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, e no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, no terceiro andar do Terminal.




(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

26.05.2008