O resgate da inspiração


FOTO: RENATO XAVIER


DESTAQUES: Heitor Coutinho, com sua abstração geométrica (1), e fotografia de Luish Moraes Coelho (2)




Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Quase três anos passados de sua morte em Belo Horizonte, e sob o título bastante sugestivo de “O Resgate”, o Espaço Cultural Singular Antiquário Objetos & Arte, de Regina da Costa, apresenta, num misto de resgate e até certo ponto retrospectiva, a exposição de Heitor Coutinho.
No final dos anos 40, Heitor Coutinho e Cícero Dias iniciaram a ruptura da arte moderna no Brasil através de sua abstração geométrica. O artista mineiro, a partir de sua primeira individual e ao fixar residência no Rio de Janeiro, em 1956, tornou-se nome de prestígio internacional.
Em Nova Iorque, ele conheceu Marcel Duchamp que, ao ver suas criações em estilo box-form premiadas na Petit Galeria do Rio de Janeiro, abriu todas as portas nos Estados Unidos e na Europa para o mineiro, um dos mais notáveis artistas construtivistas da América Latina.
Por obra de seu temperamento introvertido e boêmio, Heitor Coutinho ficou esquecido ao retornar ao Brasil, e voltou para Belo Horizonte, morando no bairro Santo Antonio.
Nos últimos anos de vida, ele manteve contato apenas com o colecionador Delcyr Antônio da Costa, Sérgio Aleixo e o crítico paulista Walter Domingues, que possui um dos arquivos mais abrangentes do artista em toda a sua trajetória.
Na década de 90, Delcyr Costa resgatou o artista para interessados na tendência construtivista e a crítica especializada. Apesar de que seja conhecido, principalmente, por seus objetos em formato de caixas, da mostra de agora constam dez pinturas, nos limites da abstração geométrica e do construtivismo.
Um detalhe: falamos apenas de obras de colecionadores particulares e amigos próximos.
Também em destaque nesta semana estão as fotografias coloridas de Luish Moraes Coelho, em cartaz desde o final de semana, na Galeria de Arte Copasa. O artista não se conteve com os limites da pin-hole com a qual há anos desenvolve suas propostas. Em sua nova série de fotos, “Meta-Câmaras”, deixa a câmera de lado e parte para a tenda original. Afinal, ele fotografa pessoas em ambientes domésticos onde um orifício criado em uma janela, vedada à entrada da luz, projeta naturalmente a imagem do exterior, ou seja; de cabeça para baixo, viva e reluzente.
Além da beleza da imagem, saltam aos olhos o contraste entre a reação das pessoas fotografadas e a mágica do princípio da fotografia.
Enfim, lá estão o prédio sobre ombros vergados, outras, de contemplação, como o rapaz que observa, relaxado, o horizonte de nuvens com o céu de prédio. Sem malabarismo, ele inova e renova a estética da fotografia de maneira deveras experimental.
Sem dúvida, uma das mais interessantes dentre as últimas exposições no gênero realizadas nos últimos anos em nossa BH.



Heitor Coutinho - Pinturas. Vernissage quarta-feira, de 19 às 23 horas, no espaço Cultural Singular Antiquário Objetos & Artes (Rua do Ouro, 586, Serra).
Luish Moraes Coelho
- Na Galeria de Arte Copasa (Rua Mar de Espanha, Santo Antônio) em horário comercial, inclusive aos sábados. Até 24 de setembro.



(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br


27.08.2007