Do ancestral ao contemporâneo


FOTOS: DIVULGAÇÃO

Galeria Murilo de Castro abriga a obra recheada de simbolismos de Mestre Didi



Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


Palmas, palhas, búzios, vegetais, contas, nervuras de palmeira e couros são os elementos principais da mostra “Mestre Didi - Da Ancestralidade à Contemporaneidade”. A primeira individual do artista plástico baiano em Belo Horizonte apresenta um total de 28 propostas na Galeria Murilo de Castro. Corresponde a um recorte do que há de mais representativo de sua criatividade e trajetória, realçando esculturas e objetos que se enquadram em Artes Decorativas em nível do tridimensional e, por extensão, em arte contemporânea.

À primeira vista, ocupa todo o espaço expositivo da galeria, que perdeu a característica principal das paredes brancas, comuns no circuito das galerias no geral. Todo o espaço em preto,complementados com dezenas de metros de tule no mesmo tom. A ambientação de Pedro Pederneiras, além deprovocar contraste e transparências, realça cada obra, comluz direta e indireta, numfoco único,às vezes sugerindo estar suspensas no ar.
Conhecio artista nos anos 60, na Primeira Bienal Nacional da Bahia, e através dos organizadores do evento,fiquei sabendo que havia nascido em Salvador, no entanto, descendia da nobreza africana e era filho tambémúnico da mãe-de-santo Maria Bibiana do Espírito Santo.Além disso,Deoscoredes Maximiliano dos Santos (leia-se seu nome completo),era o mais antigo descendente no
Brasil do reino africano no Ketu, atualmente ocupado pela Nigéria e Benin.
Em Salvador ,ele fundou e preside o Ilê Asipá, sociedade de culto aos ancestrais. Como escritor ,escreveu vários livros, destacando-se “Ancestralidade Africana no Brasil”. À propósito,ele foi um dos principais premiados da Bienal da Bahia que, pela variedade de suportes, foi criado um módulo e uma nova tendência: Artes Decorativas a fim de premiá-lo fora das tendências pintura, gravura, desenho, escultura e objetos.
Sua companheira de quase 45 anos, a antropóloga argentina Juana Elbein dos Santos, realiza um trabalho constante na elaboração teórica. A seguir, transcrevemos texto dela, que corresponde a uma síntese de sua análise crítica. elaborada especialmente quando da XXIII Bienal Internacional de São Paulo,da qual participou com Sala Especial, recheada de símbolos e signos que muito tem com sua terra de origem e o sincretismo das religiões brasileiras: “Mestre Didi é um sacerdote-artista. Integrado medularmente ao universo Nagô africano brasileiro que mamou dos peitos das mães africanas, cresceu e aprofundou, através de sucessivas iniciações, nos mistérios transcendentes da vida e da morte, nos segredos das identificações com os espíritos ancestrais - os egun - e comas entidades sagradas - os orixás”.


Mestre Didi - Da Ancestralidade à Contemporaneidade. Galeria Murilo de Castro (Rua Benvinda Carvalho, 60 - Santo Antonio). Em cartaz até o dia 9 de agosto. Visitas de 10 às 19 horas, de segunda a sexta, sendo aos sábados das 10 às 13 horas.



(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte - Orgão da Unesco.
Home Page: www.morganmotta.com E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br


28.07.2008