Velhos e bons tempos

CLÁUDIO TOZZI

Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


VISUAIS em museu paulistano, mostra "Nave dos Insensatos" revisita o melhor dos anos 60 e 70.

A seleção de dezesseis artistas, para a coletiva "Nave dos Insensatos", representa uma fatia do acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) dedicada às décadas de 60, 70 e, por extensão, até certo ponto os anos 80. O mote da mostra: contestação política e ousadas linguagens vanguardistas que definem essas décadas e são temas lembrados nas propostas de Amilcar de Castro, Antônio Henrique do Amaral, Arcangelo Ianelli, Caciporé Torres, Cláudio Tozzi, Cleber Machado, Guto Lacaz, Ivald Granato, José Roberto Aguilar, Luiz Paulo Baravelli, Maria Bonomi, Siron Franco, Sonia Von Brusky, Tomie Ohtake, Tomoshige Kusuno e Wesley Duque Lee.

SONIA VON BRUSKY

O ponto de partida da exposição coletiva foi quando o MAC deu início a série de encontros com artistas, para pensar, avaliar e discutir o acervo do Museu e apresentar soluções às eventuais lacunas da coleção, além de buscar a efetiva participação do artista nas atividades desenvolvidas pelo museu.

CACIPORÉ TORRES

Um dos desdobramentos desse diálogo é a exposição ora em cartaz. Além disso, a diretora do Museu e curadora principal Elza Ajzenberg afirma que a idéia de trajetória e da constante busca de representar o mundo ao seu redor inspirou o tema da exposição, retirado da obra de Hieronymus Bosch, "expressando a idéia de que somos todos navegantes em busca de um lugar seguro", e as condições do mundo provocam dúvidas e equívocos. "Nave dos Insensatos" reflete o envolvimento integrado de todos os profissionais do MAC, um museu público e universitário, iniciando campanha para que as obras apresentadas sejam incorporadas ao acervo, como alternativa para atualizar a coleção de arte contemporânea. A pesquisa planejada e desenvolvida pelas professoras Elza Ajzenaberg e Daisy Peccinnini, curadoras docentes e decanas da instituição, contou com a colaboração das neófitas curadoras Helouise Costa e Kátia Canton.

CLÉBER MACHADO

Trata-se do confronto entre tudo aquilo que eles criaram nas décadas passadas, em interface com suas respectivas produções atuais, de uma maneira ou de outra, demonstrando que alguns continuam explorando contestações políticas e sociais do Brasil nos anos 60, com linguagens vanguardistas, ousadas e irreverentes, absorvidas nos anos seguintes. Juntamente com as idealizadoras e curadoras-adjuntas, cada artista escolheu três trabalhos de sua produção recente, em nível de pinturas, gravuras, esculturas, objetos e um único vídeo, de Cleber Machado, para compor a coletiva ao lado das obras do acervo do Museu. Sem dúvida, uma ótima idéia.

Afinal, coleções fragmentadas e sem nenhum desdobramento é situação encontrada em todos os museus brasileiros. Que sirva de exemplo o projeto idealizado pelas professoras Elza Ajzenberg e Daisey Peccininini. Por falar em Sampa e suas exposições, para aqueles que estão programando visitas até o mês de julho, recomendamos, além da coletiva acima, a comentada Oca de Oscar Miemeyer, que voltou a ser ocupada após quatro meses sem atrações. A exposição "Corpos Pintados", até 3 de julho, percorreu 32 museus das Américas e da Europa. A meta é mostrar o corpo humano como sinônimo de espetáculo e beleza. Outra boa pedida é "A Herança dos Czares", cartaz no Museu de Arte Brasileira (Rua Alagoas, 903, Pacaembú). Como se sabe, de 1613 a 1917, a dinastia Romanov reinou absoluta na Rússia. Nesse período, os czares, como eram chamados os soberanos russos, colecionaram todo tipo de objetos de arte - jóias, mobiliários e acessórios, na sua maioria dignos do poder e da opulência do império. Vêm desse acervo, que tem mais de 80 mil itens guardados no Kremlin, as duzentas peças em exibição.

"Nave dos Insensatos" - Mostra coletiva no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (Rua da Reitoria, 160, Cidade Universitária, São Paulo-SP). De terça a sábado, de 10 às 19 horas, e aos domingos e feriados, de 10 às 14 horas. Até 3 de julho


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte. Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br)

30.05.2005