O bom de Bonadei

Fotos: Fialdini/Wilton Montenegro

DESTAQUES: Detalhe da capa do catálogo (1) e pintura (2) de Bonadei, feita em 1960, e torre de rádios de todos os tipos e décadas (3), de Cildo Meireles


Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS

Na capital paulista, dentro e fora do Pavilhão da Bienal Internacional de São Paulo, acontece overdose de atrações. Por outro lado, nas outras galerias e museus, a chamada programação "off" ou paralela - especialmente organizada para o período - e sem nenhum vínculo com a Bienal, vale a pena visitar. Haja fôlego e disposição.
O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (sede Parque Ibirapuera) homenageia Aldo Bonadei, no ano do centenário de seu nascimento, com mostra retrospetiva de sua obra, oferecendo rara oportunidade de rever a trajetória de um dos mais importantes artistas brasileiros do nosso modernismo.
A vida de Bonadei corresponde a um roteiro de dedicação às artes plásticas. Sua iniciação em pintura foi bastante precoce: deu-se aos nove anos, prolongando-se, sem interrupção, até a véspera do Natal do ano 1973, quando sério problema de saúde o levou a uma hospitalização, da qual decorreu seu falecimento, logo a seguir, no início de 1974.
A curadora da mostra, a diretora do MAC USP Lisbeth Rebollo Gonçalves, sintetiza sua curadoria com a seguinte opinião: "O debate Figuração x Abstração, que domina o ambiente artístico do decênio 1950 e provoca polêmicas e discussões, aparece nas telas de Bonadei com feições próprias e pessoais. É importante ressaltar que, mesmo perfeitamente inserida no momento histórico, a obra do pintor apresenta sempre características peculiares, em face das novas correntes, ora assimilando-as, ora acrescentando-lhes inovações".
O MAC USP do Ibirapuera apresenta agora completo recorte do artista e de toda sua obra, numa montagem irrepreensível. Além de tudo, excertos de críticas dos anos 30 até às vésperas do seu falecimento dão uma visão do artista e de toda sua trajetória, um dos ícones do nosso modernismo.
Por outro lado, esqueçam por uma manhã a grande maioria das propostas conceituais em display no Prédio da Fundação Bienal de São Paulo, quase todas sem nenhuma consistência. Em seguida, não deixem de visitar o mais novo espaço museológico de Sampa, no antigo Dops, onde estão as propostas de Cildo Meirelles, que se negou a integrar a parte da Bienal no seu habitat principal (Parque Ibirapuera), em função do seu protesto até a queda do antigo presidente e durante alguns meses presidente do Conselho, o polêmico Edemar Cid Ferreira de triste memória.
Daí, apesar de fazer parte do programa paralelo da Bienal, Cildo saiu ganhando. Lá, estão suas excepcionais instalações, significativos modelos do que é arte conceitual elaborada por artistas sérios e sem maiores malabarismos dos fakes (leia-se falsos) conceitualistas.
Dispostos em uma torre de cinco metros de altura por dois de diâmetro, centenas de rádios integram a instalação Babel. Cada aparelho sintoniza uma programação distinta, recolhida pelo vanguardista artista carioca ao redor do mundo. Espaço e som versus visualidade, também são explorados por Cildo nas propostas "Marulo" e "Cruzeiro do Sul", na Estação Pinacoteca.

"Bonadei: Percursos Estéticos" - No MAC Ibirapuera, 3º andar do prédio da Fundação Bienal de São Paulo, Parque Ibirapuera, São Paulo. Visitas até o dia 28 de janeiro de 2007, de terça a domingo, de 10 às 19 horas. ENTRADA FRANCA. Cildo Meireles - Na Bienal de São Paulo (Largo General Osório, 66, Luz, São Paulo), de terça a domingo, de 10 às 18 horas.

(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com. E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br

30.10.2006